Os cometas têm o persistente hábito de passar muito tempo longe do Sol, quase escondidos, na sua imperturbável rota em torno do astro, até que ressurgem fulminantemente, à vista de todos. A carreira de Teté Alhinho parece um pouco assim, nunca parou mas esteve longe das luzes da ribalta nos últimos tempos, pelo menos até agora. “Estive sempre em movimento. Nunca paro. Aliás, estava com um projeto musical antes de me dedicar a este. Tenho sempre vários projetos”, responde Teté Alhinho em entrevista ao SAPO. O novo trabalho, lançado este mês, apenas se concretizou porque houve alguém que foi às ilhas do Atlântico ‘resgatar’ as músicas que a cantora de 60 anos deixara em banho-maria, à espera que alguém lhes desse fôlego.

Culpas para a produtora Mónica Jardim, que recusou deixar esquecida a voz fluida, delicada mas sempre dinâmica da artista nascida na ilha do Mindelo. Desde 2004, com «Voz», que não lançava um álbum a solo, isto apesar de ter composto mais de 50 músicas ao longo da carreira, tendo sido como vocalista do grupo Simentera, um dos mais famosos de Cabo Verde na década de 1990, que o nome de Teté levantou voo.

Voltemos ao presente. “Eu precisava de alguém como a Mónica, porque não conseguia fazer tudo. Tenho uma série de trabalhos que nunca foram editados. Só que eu tinha a minha família, com filhos para criar... Mesmo assim, fui gravando. Entretanto, a Mónica veio ter comigo há dois anos e o resultado está à vista”, diz.

O “resultado” foi uma coletânea de mornas onde o piano serve de batuta, um instrumento que marcou a infância e memória da artista – aos seis anos o seu pai, alentejano de gema, trouxe um para casa – e que, agora, é usado para recuperar canções que marcaram o seu passado e dar a conhecer alguns temas inéditos.

“Acima de tudo, são mornas com algum significado para mim. «A Sina de Cabo Verde» é uma morna muito bonita sobre a relação que tenho com a minha terra, a relação dos cabo-verdianos com a sua terra. «Dor Di Nha Dor» lembra-me o Bana. «O Sodade Tem Pena de Mim», do Daniel “Nhela” Spencer, é uma figura sempre presente na minha casa, nas tocatinas. Normalmente eu toco esse tema. Quase todas elas são músicas com um pouco de história, e eu gosto de músicas com história”, revela.

E é precisamente uma história tipicamente cabo-verdiana que o tema de “Nhela” Spencer nos conta. “É a história de uma mulher que emigra, uma situação muito comum em Cabo Verde, e que deixa os filhos. Vai procurar um meio de continuar a sustentar e dar escola aos filhos, mas com a intenção de eles irem ter com ela mais tarde e continuarem a estudar, com melhores condições. Mas a saudade é o grande peso no meio de tudo isto, um sentimento que não a deixa estar longe. Ela precisa de estar longe por causa deles, mas, ao mesmo tempo, a falta que tem deles, a saudade, aflige-a, não lhe dá paz. E ela quer e precisa de paz para poder realmente criar os seus filhos. A música é quase um diálogo dela com a sua saudade, isto se virmos a saudade como um outro interlocutor. É uma confidência que faz, em que confessa que está quase a desistir.”

O resto do álbum inclui temas como «Mindel de Mãe Auta», composto pela cantora a pensar na mãe, e que, segundo a mesma, “é o somatório dos meus afetos, com a minha mãe e a minha terra”. O cabo-verdiano Mário Lúcio, fundador dos Simentera, também deixou a sua impressão digital: “Ele compôs mais uma música para a minha mãe, o «P’Auta», assim como um outro que fala do amor, o «N’Tem Um Amor», um tema que eu costumava cantar”.

“É preciso engolir muitos peixes pelo rabo para depois fazer o que se quer”

O álbum, produzido em Portugal, Cabo Verde e nos Países Baixos, custou cerca de 6500 euros, obtidos através de uma plataforma digital de financiamento coletivo. “É uma coisa muito bonita envolver outras pessoas num projeto que deixa de ser nosso e passa a ser coletivo”, salienta Teté. “Mostra que as pessoas se interessam pela tua carreira, querem que continues o que estás a fazer.”

Teté Alhinho ao vivo no B.Leza

Mesmo assim, será que o público mais jovem ainda se interessa pela morna, um estilo tão e profundamente ligado a Cabo Verde, a toda uma tradição musical? Atualmente, a nova geração de artistas cabo-verdianos, nomeadamente os que pretendem encher salas de espetáculo fora do país, preferem apostar em géneros como o Afro-Pop, o Zouk, o Kizomba e até o Dancehall, com sonoridade eletrónica à mistura.

Teté Alhinho não desvaloriza esta mudança, o sentimento de que há algo que se pode perder no que respeita à morna, mas também não dramatiza. “Há coisas que são para sempre e outras que são efémeras. Há estilos de música que são a expressão de uma época, e, na história, temos tantos estilos assim. Acredito que a morna não morre, e sabe porquê? Porque no dia em que a morna morrer, morre também o sentir cabo-verdiano, e esse nunca vai morrer. Tenho a certeza de que muitos jovens músicos de Cabo Verde, que seguem uma outra linha, a pouco-e-pouco vão mudar. Ao longo do seu percurso vão-se voltar um pouco mais para as raízes, para a terra, e acabarão por fazer coisas muito bonitas. Eu acredito nisso. Tenho de acreditar.”

Recentemente, uma das novas estrelas da música cabo-verdiana, Djodje, afirmou que “os artistas, muitas vezes, confundem entre aquilo que gostam de ouvir e aquilo para o qual têm mais potencial”. Para a cantora do Mindelo o problema de construir uma carreira está mais na condição precária, muitas vezes, de quem se aventura no mundo da música com idealismo. “Ser artista não é fácil. Viver somente da música não é fácil. Eu sei de muitos artistas que optam por um estilo que tem sucesso, mesmo não sendo a sua primeira opção, por uma questão de sobrevivência”, dispara Teté.

“Nem todos, no início da carreira, fazem aquilo que querem. Para muitos é arriscado, difícil ou até impossível. Às vezes é preciso engolir muitos peixes pelo rabo, para então depois fazer o que se quer. Ainda há muitos artistas cabo-verdianos que cantam a morna, os ritmos tradicionais. Mas é preciso, também, sensibilizar o público para outros ritmos, e não fazer bandeira com os ritmos que dão mais dinheiro, que entram mais facilmente no ouvido. É preciso espaço para todos os tipos de música, e há que dar oportunidade aos artistas para os escolher. As rádios e a comunicação social têm fazer isso, o dar às pessoas a oportunidade de escolherem.”

Cabo Verde, um caldeirão cultural onde a música chega de todo o lado

A casa onde cresceu, no Mindelo, ela própria uma terra muito marcada pela diversidade cultural, um pequeno ‘melting pot’ fabricado pelos estrangeiros que chegam ao porto e pelas influências trazidas pelo êxodo cabo-verdiano, transbordava a música. “Era uma casa com muitos irmãos e sabe como são os irmãos mais velhos… Eles tocavam muita música. Música do Brasil, Cabo Verde, Portugal e, claro, muita música inglesa. Nós ouvíamos muito, na rádio, a Voz da América, assim como outras estações em língua inglesa.”

Teté Alhinho

“Tudo o que se passava no mundo, fossem notícias ou música, chegavam muito rapidamente a Cabo Verde. E Cabo Verde sempre interessou-se pela música que vinha de fora. Como sempre houve uma grande emigração, os cabo-verdianos traziam novas influências. Há dias estava a falar com um amigo meu, e o pai dele, que era emigrante, trazia discos do México. Era assim que a música chegava a Cabo Verde, e nós ouvíamos de tudo.”

A viver atualmente na cidade da Praia, numa das ilhas do Sotavento de Cabo Verde, a ilha de Santiago, a antiga voz dos Simentera recorda com nostalgia os tempos em que esteve ligada à mítica banda. “A melhor recordação que guardo desses tempos é a convivência, a grande família que éramos e ainda somos. Partilhar o palco com os Simentera é sempre uma coisa gratificante. O público que sempre tivemos em todos os lugares, as turnés, as piadas, as brincadeiras. Foi uma época muito agradável, porque somos muito amigos uns dos outros, mas principalmente pelo crescimento como músicos que tivemos, pela cumplicidade e a forma transparente como sempre tratámos os problemas.”

O grupo, que marcou o panorama musical cabo-verdiano e toda uma nova geração de artistas, entre 1992 e 2004, ano em que a saída de Mário Lúcio ditou o fim do projeto, conseguiu chegar a um público que ia dos “8 aos 80”, como refere Teté Alhinho. Acima de tudo, “foi uma maneira diferente de fazer música em Cabo Verde, mais completa e trabalhada, com bons arranjos, uma maneira diferente de se estar e de respeitar o público, respeitando horários; foi uma lufada de ar fresco”.