Falamos com Mário Lúcio num hotel no centro de Lisboa, Portugal, aquando do concerto no B.leza, mas a conversa estende-se por muitas mais geografias e outros tempos. É uma viagem desde os tempos da descoberta do acordeão diatónico em Paris, ao cume do Pico do Fogo até ao funaná que se dança na Praia.

Antes de “Funanight” sair à rua e entrar pelos bares e táxis adentro, Mário Lúcio precisou de descobrir toda a história do funaná, dos seus instrumentos, origens e influências. Um trabalho de pesquisa que demorou 22 anos e que mistura muitos conceitos de identidade, do que é ser cabo-verdiano e crioulo.

Entre os salões de Paris e os barcos baleeiros

“Eu não tinha os dados, de onde chegaram os instrumentos, para onde foram, que músicas eram tocadas, em que datas, em que região… Tínhamos a música mas não sabíamos nada. O passado que conhecíamos era dos anos 40”, explica-nos, para logo a seguir completar: “Descobrimos que o acordeão diatónico foi inventado em Paris, em 1865, com o objetivo de doar aos marinheiros e emigrantes um instrumento de salão, fácil de tocar, pequeno e robusto, com poucos botões.”

O instrumento tornou-se popular e os cabo-verdianos que foram para a pesca da baleia tiveram o seu primeiro contacto com o acordeão nos Estados Unidos. Muitos outros povos se juntavam, entre eles açorianos e galegos. De regresso, a gaita como também é chamado o instrumento  ainda passou pelo porto de Durban, na África do Sul, onde juntou ritmos zulus às valsas, polskas e marchinhas que já trazia. A Marinha Mercante levou-a para Cabo Verde e de lá ainda partiu, recheada de sons, para a América do Sul. Passou na Colômbia e instalou-se bem no Brasil, onde se juntou com o ferrinho, e “influenciou a origem ao forró”.

Grito de Liberdade

“Agora, já sabemos o caminho, onde nos influenciaram e quem nós influenciamos”, explica o cantor e ex-ministro da Cultura entre 2011 e 2016.

Na odisseia desta gaita, há uma enorme coincidência e é este facto histórico que faz com que o funaná seja o que que é hoje. “Quando o acordeão chega a Cabo Verde, está a dar-se a abolição da escravatura. O funaná deixou de ser apenas tocado por criados domésticos mas passou a ser tocado por homens do campo que tinham independência. Deixou-se de tocar só valsas e marchas e esses homens é que criaram o funaná.”

“Para mim, o funaná é a libertação do homem cabo-verdiano, da libertinagem, da sensualidade. A música liberta e os homens libertos apoderaram-se disso para gritar a liberdade. O funaná é a consolidação de um género musical que reúne os que tínhamos àquela época.”

Vamos avançar dois séculos na História: Mário Lúcio sai do Governo e lança o álbum “Funanight”. “Vim fazer um serviço, mas foi muito difícil esquecer a parte artística. É preciso muita mentalização”, explica ao SAPO. “Precisava de me despir do politicamente correto. Como ministro, tinha de expressar a opinião do Governo, que nem sempre era a minha, estava em representação do povo e do Governo. Domámo-nos muito mas depois podemos mandar toda a gente ouvir música”, explica entre risos. E continua: “Senti que cumpri e que agora sou um homem livre, que estou liberto, que cumpri a missão, ajudei o coletivo e agora estou pronto para pontapear.”

Funanight
Mário Lúcio lança quinto álbum

E é deste grito que sai “Funanight”, com uma voz mais rebelde e outras tonalidades que foram assumidas nas ruas, nos táxis, nos bares e restaurantes e que passou para a multidão. “A minha música era de elite sem eu querer, foi a forma como se instalou, e agora o povo apoderou-se do disco e isso dá-me um complemento e uma responsabilidade que não tinha antes. Foi o disco que me tornou um músico popular.”

40 anos! Documentário, Concerto, Livros e regresso dos Simentera

A carreira já é longa e teve início há 40 anos, quando Mário Lúcio criou a banda Abel Djassi, em homenagem a Amílcar Cabral, no Tarrafal de Santiago. E, desde aí, lançou nove álbuns e outros tantos livros.

Para as celebrações desta efeméride, o compositor está a gravar um documentário, prepara um disco com o músico brasileiro Gilberto Gil e um concerto na Praia, agendado para 27 de setembro, com intérpretes que gravaram a sua música, entre eles Mayra Andrade, Nancy Vieira e Mirri Lobo.

Dentro destas comemorações, voltam também os Simentera. Depois de um concerto muito esperado no Kriol Jazz Festival em abril último, Mário Lúcio garante mais espetáculos do grupo.

Depois de ter deixado o grupo, Mário Lúcio fez um retiro em São Vicente, ficou numa casa vazia e compôs grande parte do “Mar e Luz”. Seguiu para Santo Antão mas sentiu-se abafado pelas montanhas sem conseguir compor. Foi para Chã das Caldeiras, subiu o vulcão e “abriu-se tudo”. Decidiu ir pelo lado mais intimista de voz e violão.

Mar e Luz

Nestes processos, foi difícil manter os Simentera, mas explica que se encontram e tocam todos os anos. “Estamos juntos, mas eu não tinha forças.” Hoje em dia, todos têm os seus projetos mas a ideia é reunirem-se esporadicamente para matar saudades do público e vice-versa.

“Português é poema, crioulo é canção”

Este ano, também tem previsto lançar mais um romance e um manifesto. Escrever está-lhe na alma como a música, afinal são tudo processos de criação. “Sinto um arrepio de qualquer coisa do universo em contemplação comigo e começo a materializar isso.”

“Se nascer em português, eu sei que vai ser um poema e escrevo um poema que nunca será canção; se as primeiras palavras me saírem em crioulo eu sei que é uma música e que também nunca vai ser um poema.”

O português começa na escola, na escrita. Já o crioulo começa na oralidade, “tem muita percussão de línguas africanas, e muita métrica, os nove sotaques de crioulos também são muito convenientes”, explica o compositor, adiantando que na música não há preconceitos de sotaques e que Barlavento e Sotavento se podem misturar tão bem como funaná e heavy metal, como aliás mostra “Funanight”.

Entre géneros musicais, línguas e sotaques, o cantor explica também como se misturam os sentimentos com os ritmos, como o batuque e o funaná, cheios de ritmos contagiantes e de histórias de festa e amor, podem também ser sofridos, cheios de saudade ou de histórias de fome e naufrágios. A música que canta a crónica do dia, desde os tempos do funaná, da apanha do algodão ao Cotxi Pó. “Nós dançamos a tristeza. Perfeitamente.”

Já nos livros, a liberdade também é grande: “Quando me assalta a primeira palavra, nunca sei como vai ser a história e como vai terminar. Escrevo muito”. Mário Lúcio entregou três romances à editora e um manifesto, que vai ser publicado ainda este ano no seguimento das comemorações dos 40 anos de carreira, sobre os seus estudos sobre a crioulização.

Mário Lúcio

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