Em Cabo Verde para promover este álbum, o artista conversou com o SAPO Muzika e prometeu voltar já em abril para “um concerto que este público merece”.

Superação pessoal

“Se eu olhar para o meu percurso até hoje, com o primeiro disco em 2008, e agora com o Mundu Nobu em 2018, nunca pensei que fosse assim. Sabes quando tudo acontece? Superei a mim próprio durante esse processo de 10 anos”, diz com alguma emoção na voz.

O trabalho atual é resultado de um processo de busca pela sua voz, em que Dino acabou por conciliar o seu registo mais tradicional que se inspirava em nomes históricos da música cabo-verdiana como os Bulimundo, Ildo Lobo, Cesária Évora, entre outros, com o outro lado de hip hop, new soul, RnB.

“Nesse processo encontrei a minha voz, porque até então eu era muito a reprodução de tudo o que ouvia da música anglo-saxónica. Aqui em Cabo Verde encontrei o meu tom”.

As conversas com os avós (a avó participa inclusive no álbum), as visitas ao interior da ilha de Santiago e as histórias das mães e avós cabo-verdianas inspiram letras de intervenção que depois se uniram um beat mais moderno pela mão dos produtores Paul Seiji (Londres), Kalaf Epalanga (Angola) e o nova-iorquino Rusty Santos.

A produção do álbum foi um ‘processo moroso’ que levou cerca de dois anos, segundo Dino.

Nova Lisboa

Outro momento alto de 2018, ainda anterior ao lançamento do disco, foi a atuação de Dino d'Santiago com o DJ e produtor Branko, com o tema "Nova Lisboa" na final do Festival Eurovisão da Canção, que este ano aconteceu em Lisboa. A performance que contou também com Plutónio, Sara Tavares e Mayra Andrade.

“Não feches o álbum sem ir ter com o Branko”, aconselhou Carlão, também ele músico e amigo de Dino. E assim fez.

Num encontro com DJ e produtor surgia o beat que viria a dar lugar ao tema “Nova Lisboa” para o qual Dino improvisou a letra. “A partir daí, tivemos de rever o disco todo. O ‘Nova Lisboa’ é um tema muito minimal que quase não tem instrumentos: é voz, beat, e uma coisa muito etérea a dar harmonia”.

Segundo Dino, o conceito por detrás do tema inspirou uma revisão de todo o álbum. O resultado final foi 'Mundu Nobu' que foi uma vitória, para o cantor. “O álbum saiu em outubro e em dezembro, já estava em quase todas reviews de revistas, blogs, tops, como o n.º 1”.

O artista acredita que para todos que estiveram envolvidos no trabalho, a grande gratificação foi justamente perceber que as pessoas entenderam a mensagem.

Uma curiosidade sobre o disco é que 80% das letras são em crioulo. Inclusive, Dino tinha algum receio sobre como o trabalho seria recebido pelos cabo-verdianos que se dissipou com o feedback positivo.

Não só o público crioulo, mas também o português e o europeu, no geral, tem enchido salas de espectáculo para ver e ouvir o novo álbum.

No início deste ano, o cantor vai apresentar o “Mundu Nobu”, em tour, na Polónia e depois em Portugal.

Diz que cada vez mais sente a responsabilidade de “ser um embaixador de Cabo Verde”. Depois de ouvir os temas, as pessoas querem saber mais sobre o país, explica e acrescenta que recebe mensagens de todos os cantos do mundo a perguntar por Cabo Verde — da Argentina ao Japão.

“Fomos facilitados porque existiu uma Cesária que foi por esse mundo fora e graças a ela depois houve muita repercussão para todos nós (artistas)”.

Este ano novo deverá trazer a concretização de alguns sonhos, nomeadamente a atuação em vários palcos com os quais já sonhava há algum tempo.

'Nesta relação com a Madonna, o grande vitorioso vai ser Cabo Verde'

Em 2017, Dino d'Santiago conheceu a Rainha do Pop, Madonna, que atualmente vive em Lisboa.

O artista acabou por dar a conhecer à cantora uma "Lisboa Crioula" que resulta dos sons e influências de artistas que escolheram esta capital europeia para viver.

Sem esquecer as raízes, Dino apresentou a Madonna o batuku e as batukadeiras, nomeadamente a Orquestra de Batukadeiras de Portugal, um coletivo que acabou por conquistar a Diva do Pop que ‘amadrinhou’ o grupo que inclusive vai fazer parte do novo trabalho da cantora a ser lançado em 2019.

A ideia de criar o projeto Orquestra de Batukadeiras de Portugal partiu de Dino d’Santiago, a convite da Associação de Mulheres Cabo-verdianas de Lisboa.

"Nesta relação com a Madonna o grande vitorioso vai ser Cabo Verde (…) de tudo o que lhe mostrei da Lusofonia o que mais ela sentiu foi a essência das batukadeiras, a forma como aquelas mulheres que não vivem da música se entregam e vivem aquilo com muita seriedade".

De resto a parceria que resultou deste encontro é algo que deixa Dino orgulho. “Se tivesse que deixar um legado, um contributo a Cabo Verde, penso que esse será essa conexão”.

Sem entrar em grandes detalhes por motivos de confidencialidade, Dino confirma que o próximo disco de Madonna vai trazer outras novidades para além das batukadeiras e acrescenta: “O nosso povo ainda se vai orgulhar muito do que está a chegar e definitivamente ela (Madonna) vem cá. Foi promessa”.

Em abril, promete regressar a Cabo Verde para dar a conhecer melhor o álbum “com um concerto que este público merece” e gravar ainda videoclipes para dois temas, nomeadamente “Raboita Sta. Catarina”, ao lado de Hélio Batalha.

Dino d’Santiago: “Em Cabo Verde encontrei o meu tom”
créditos: CM

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