Já são três décadas a cantar Cabo Verde. Beto Dias quis assinalar o feito com os fãs com um tour que arrancou em agosto de 2019 em Lisboa, passou por Holanda depois pelas ilhas de São Vicente e Sal e que acontece agora na cidade da Praia. Em conversa com o SAPO, o artista recordou alguns dos momentos que marcaram estes 30 anos.

Desde de dezembro que Beto Dias ambicionava realizar o show comemorativo na capital, mas devido às várias atividades na cidade nessa altura, optou por esperar até março. O evento acontece a 7 de março, na FIC. Os bilhetes já começaram a ser vendidos, com o primeiro lote a ser comercializado a 600 escudos.

Com uma carreira que já conta com 6 álbuns a solo, um dos quais Best Of, Beto Dias promete recordar alguns dos seus maiores sucessos numa noite que vai contar com convidados especiais. “Quero que seja uma festa, por isso também estou a convidar muitos artistas”, afirma.

Já estão confirmadas as participações de Loony Johnson, Suzanna Lubrano, cantora com a qual tem vindo a colaborar desde o início da carreira, Neuza de Pina, Sandro Correia, David Brazão, Buguin Martins, Marcos Fonseca, Ló, dois grupos de batuco de Santiago, estando ainda alguns nomes por confirmar.

Se não fosse pelos Rabelados não estaria aqui a falar dos 30 anos de carreira

Na década de 1980, começou a sua carreira numa banda que marcou a música cabo-verdiana, os Rabelados, que surgiu na Holanda, para onde Beto Dias emigrou ainda em adolescente, pela mão de um grupo de jovens cabo-verdianos nesse país.

Com dois discos gravados nos Rabelados, Beto Dias destaca o segundo álbum “SuKuro”. “Para mim foi um dos melhores já feitos por uma banda (de CV). Tenho muito a agradecer aos Rabelados. Foi o que me abriu as portas (do mundo do espetáculo). Comecei como guitarrista, mas depois alguém me convenceu de que sabia cantar. Se não fosse por isso, se calhar, não estaria aqui a falar sobre os 30 anos de carreira”.

A primeira vinda a Cabo Verde com a banda deu-se em 1990. Primeiro atuaram na ilha do Sal, depois tinham um show marcado no Parque 5 de Julho.

“Foi muito especial. Começamos com a música “Unidade e Amor” (tema que dava título ao álbum). O público começou a gritar de uma forma que fiquei completamente desorientado, esqueci-me da letra da música. Aí o público começou a cantar e acabei por acompanhar. Mas foi realmente algo fora do normal. Não estávamos à espera”.

O fim d’Os Rabelados aconteceu pouco tempo depois do lançamento do segundo álbum “Sukuro” (1996). Na verdade, Beto Dias relembra que era suposto ser uma pausa e não o fim do projeto. A pausa acabou por durar 19 anos.

“Para mim acabou por funcionar bem porque continuei a solo, mas para alguns elementos não foi tanto já que acabaram por se afastar da música”.

O artista natural de Ribeira da Prata, interior de Santiago, acredita que teve bastante sorte no início da carreira com o primeiro álbum “Sodadi”, que foi produzido na França por Djô da Silva, cujos temas acabaram por ter sucesso na diáspora e nos PALOP.

Quem também integrou Os Rabelados e lançou vários temas de sucesso com Beto Dias é a cantora Suzanna Lubrano. Além da parceria musical, os artistas têm uma filha em comum.

“Sempre nos entendemos a nível musical e vimos que as nossas vozes se encaixavam (…) Ela cantou comigo no meu álbum a solo e eu no dela. É a única pessoa para a qual já compus uns 15 temas porque conheço-a bem. Muitas pessoas já me pediram, mas eu acho que escrever para alguém é preciso entender bem a pessoa”.

Faz questão também de cantar composições próprias e são pouquíssimos os temas que interpretou de outros artistas. Entre estes, surge uma morna de Antero Simas “Dança de nos ilha”, que integra um projeto do compositor cabo-verdiano.

Apesar de ter sido uma boa experiência, Beto Dias sente-se mais confortável noutros registos musicais.

“Gosto de músicas lentas, mas acabei por cantar zouklove e cabozouk porque são géneros que podes adaptar no tempo musical que desejas. Acho que quem canta morna deve senti-la de forma especial, se calhar alguns nem deviam sequer cantar (sorriso). A morna é um género que impõe respeito, com tantas grandes vozes que elevaram a morna (…)”.

Mesmo dentro do funaná, o cantor prefere o funaná lento. Reconhece a popularidade do atual “kotxi pó” mas diz que não é um género no qual se sinta confortável. ‘’Faz sucesso porque é um género que foi feito para as festas, para passar ‘sabi’”.

Uma década depois, um novo álbum

“Totalmenti di bo” é o último álbum de Beto lançado em 2009. Em 2015, para alegria dos fãs, voltou a gravar um single com a Suzanna Lubrano, um tema intitulado “Nu fica Djunto” e dois anos mais tarde divulgou o tema “Agora Siguin” e o respetivo videoclipe. “Acho que é o melhor videoclipe que já fiz”, diz em tom de brincadeira.

Para 2020, Beto Dias promete um novo álbum e o trabalho já está a ser preparado com alguns temas gravados. O artista não quis divulgar os nomes dos artistas que vão colaborar no álbum. “É surpresa”.

Com três décadas de estrada, confessa que fica surpreso quando é abordado por jovens com menos de vinte anos a dizer que são fãs da sua música. “Para mim é uma satisfação enorme”.

Pelo feedback do público acredita que tem margem para mais uns quantos anos de carreira. “Por isso que vou fazer este álbum. Sei que os meus fãs já são pessoas adultas e vão comprar o álbum. Não penso que sejam os fãs mais novos a comprar, mas os fãs que acompanharam estes 30 anos de carreira, acredito que eles vão adquirir”.

Tanto tempo na música permitiu também ao artista acompanhar a evolução do mercado do analógico para o digital. “Esta nova geração teve uma sorte que nós não tivemos. A música chega ao público de uma forma muito mais imediata. Mas por outro lado, (antigamente) fazíamos um álbum e o mesmo tocava durante meses, porque era a única novidade disponível. Hoje em dia, todos os dias são lançados trabalhos novos”.

Reconhece que é um pouco “old school”(da velha guarda) no que diz respeito às novas plataformas digitais e promete que com o novo álbum vai tentar fazer de forma diferente.

Espera ter força e saúde para realizar ainda os show de comemoração de quatro décadas, quiçá até de 50 anos de carreira.

Com 30 anos de carreira poucos são os sonhos que ainda estão por realizar, mas admite que tem adiado a realização de um concerto na terra Natal, em Ribeira das Pratas. “Um show ao vivo na rua dos meus pais”. Paralelamente, gostaria de gravar um álbum com músicas mais para ouvir do que para dançar.

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