Numa noite que contou com figuras de destaque como o baixista americano Stanley Clarke e o multi-instrumentista Lucky Peterson, mas também com música crioula com Elida Almeida e Tilou, a plateia rendeu-se por completo à apresentação do “Manga” de Mayra Andrade.

O último dia do Kriol Jazz Festival, 13 de abril, começou com o pé direito na voz do experiente do ‘homem dos blues’ Lucky Peterson. Acompanhado pela sua banda com 4 elementos, o multi-instrumentista, que celebra este ano 50 anos de carreira, colocou a plateia, que já era considerável, a entrar no ritmo do soul e do rock and roll.

O músico conquistou ainda mais os presentes quando desceu do palco com a sua guitarra e contornou a plateia para se sentar em cima de umas colunas em frente ao palco.

No final, em declarações à imprensa, o músico confessou que não esperava tamanha ovação do público cabo-verdiano. “Foi muito bonito”, afirmou com emoção o cantor que disse não conhecer músicos cabo-verdianos, mas que “ama a música independentemente de onde a mesma seja”.“A minha música é liberdade. Toda a música é liberdade”.

A completar 50 anos de carreira, Lucky Peterson não se importava de “continuar a tocar por mais 50 anos” e garantiu que a sua família (mulher e filhos) e a banda dão-lhe a inspiração necessária para continuar.

Perto das 22h00, subiu ao palco RougainVerde, um novo projeto de música crioula que juntou em palco Cabo Verde e a ilha da Reunião, nomeadamente a cantora Elida Almeida e a respetiva banda e o músico Tiloun que marcou presença no Atlantic Music Expo 2019.

Segundo a cantora de Santa Cruz, que se mostrou totalmente à vontade neste palco que já lhe é familiar, RougainVerde é uma espécie de ‘cozinhado’, uma fusão com sabor forte e foi justamente isso que os dois artistas mostraram aos presentes mesclando as suas músicas, como foi o caso do tema “Nlibra di bo” “Berço D’oro”, cantando em crioulo das respetivas ilhas.

Já perto do final da atuação, em que houve até tempo para um pé de dança, Tiloun afirmou que ele e a sua banda se sentiam em casa em Cabo Verde e que apesar da barreira linguística sentiam-se menos estrangeiros em Cabo Verde, do que em França, por exemplo.

Perto das 23h30, subiu ao palco um grande mestre do jazz, o baixista norte-americano Stanley Clarke. “Let’s play some music for you”, começou por dizer o músico. Um apelo prontamente acudido pelos elementos da banda que mostraram a sua mestria em palco.

Mais tarde em declarações à imprensa, o baixista afirmava que gostava de trabalhar com músicos virtuosos e que estes não são fáceis de encontrar, talvez por isso a sua banda tenha nomes de cantos do mundo como Geórgia e Afeganistão, por exemplo.

Por cerca de uma hora, o público presente entrou na onda do jazz e juntou-se em frente ao palco para apreciar Stanley Clarke e a sua banda que terminaram a sua atuação com uma selfie com a moldura humana ao fundo.

Pela primeira vez em Cabo Verde, o músico que já teve a oportunidade de fazer hoje uma conferência para artistas cabo-verdianos, afirmou que nesta vinda ao Kriol Jazz há um certo sentimento de regresso às raízes africanas. “Quando viemos para esta parte do Mundo sentimos a cultura africana, os nossos ancestrais, e é um sentimento difícil de explicar”.

Mayra Andrade tinha prometido fechar o Kriol Jazz Festival com chave de ouro e cumpriu. Nesta que foi a primeira apresentação em Cabo Verde do mais recente álbum da cantora, “Manga”, os fãs puderam encontrar uma Mayra em versão mais moderna e dançante.

A cantora que “veio das ilhas mas que pertence ao mundo” afirmou estar “extremamente emocionada” por finalmente trazer o seu álbum a Cabo Verde e pediu ao público que apoiasse tanto o festival Kriol Jazz, como iniciativas culturais do género.

O show de Mayra e da sua banda composta com 4 músicos durou mais de uma hora sob forte ovação dos presentes que de pé em frente ao palco cantaram todas as músicas do novo álbum e ainda versões mais electrónicas de temas mais antigos “Tunuka” e “Lua”.

Já perto do fim da sua atuação que curiosamente também teve direito a uma selfie com uma vasta moldura por detrás, a artista, que reside em Lisboa, afirmou que “espera voltar para apresentar este álbum noutras ilhas do país”.

Começar a fechar o orçamento mais cedo

O vereador da Câmara municipal da Praia, António Lopes da Silva,  afirmou que para a edilidade o balanço desta edição é muito positivo “Quem esteve cá viu e ouviu coisas maravilhosas. Hoje foi de facto uma noite muito especial”, declarou e enalteceu o cartaz de sábado.

“Terminou em grande com Mayra Andrade e há muito que não tínhamos uma noite tão saborosa”, acrescentou o representante da CMP que fez questão de salientar que são eventos deste género que contribuem para a consolidação da cidade da Praia como uma cidade de cultura e de música, reconhecida a nível mundial.

Cerca de 5 mil e 500 pessoas, um número ligeiramente superior à edição anterior, terão passado pelo recinto nos dois dias do evento, segundo José (Djô) da Silva, mentor do evento, que se mostrou satisfeito no final da XI edição.

Questionado sobre o desafio de manter, de ano para ano, um cartaz de qualidade, a mesma fonte adianta que não é fácil. “Acabamos por saber o orçamento que temos muito tarde e por causa disso perdemos artistas de valor. A nossa esperança é, um mês após uma edição, conseguir saber com o que podemos contar (para a próxima)”.

E para alcançar essa meta Djô da Silva diz que mais do que a câmara da Praia, que é responsável por garantir metade do orçamento, é necessário convencer os privados a patrocinar no evento mais cedo.

Nessa linha que o responsável do festival não adianta para já  nomes em carteira para o próximo ano e diz estar à espera de saber o montante com o qual a organização poderá contar em 2020.