A Inforpress convidara o músico para uma reacção sobre a classificação da UNESCO, mas Vasco Martins preferiu o poema, “por dizer de forma mais abrangente” o que sente sobre a morna do que palavras de contentamento.

Mesmo assim, assinalou que foi com satisfação que recebeu a notícia de que a morna foi inscrita na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, uma “magnífica etapa para expandir para outras boas etapas-viva, celebrativa e criativa”.

A Inforpress publica o poema “Morna: diamante de 105.7 quilates”, de Vasco Martins:

Morna: diamante de 105.7 quilates

Como um diamante raro

Criado no fogo das entranhas da Terra

A morna emerge polida pelo mar e pelo vento

Quinhentos anos de ADN sincopado

Emerge das ilhas um diamante de 105.7 quilates Único

Como um milagre que só os homens sabem fazer

Emerge um diamante lapidado pelos grandes ourives

Sim esses compositores de alma infinita

Sim esses intérpretes de alma infinita

Mas antes da anunciação o arquipélago estava adormecido

Milhões de anos de erosão silenciosa

Até que os intrépidos navegadores

Encontraram a rota do noroeste

Assim nasceu uma civilização atlântica

Com o estranho nome de Cabo Verde

Rota dos escravos africanos

Dos exilados europeus

Dos exploradores sem rumo

Temível cenário que se dilatou na quântica da Terra

E o diamante cresceu assim polido pelas viagens

Pelo violão de Andaluzia

Pelas modinhas

Pelo tango

Pelo lundum

Pelo fado

Pelo canto pentatónico de África

Pelas ladainhas e rezas

Pela alquimia poderosa quando os povos se cruzam

Canto das ilhas que escaparam à imersão da Atlântida

À perda do continente Mu

Que na Pangeia estiveram no Polo Sul

Agora estão no Médio Atlântico encostadas ao grande deserto

Ilhas que resistiram às secas e múltiplas fomes

Sobrevieram ao jugo colonial e a ditaduras arcaicas

Sobreviveram sobreviveram sobrevivem sobrevivem

Tornaram‐se mais um país ilhéu do Atlântico

A origem não interessa

Pois ela é o tempo translinear

A origem é o diamante de 105.7 quilates

Superior ao Koh‐i‐Noor

Que só tem 105.6 quilates

A realeza da morna está no coração

De um povo inteiro Encantando outros povos

No enlace fascinante da música que une e expande

Morna

Morna

Lamenti

Lamenti Melancolia existencial

Generosidade existencial

Celebração da vida

Celebração do amor

Filigrana da saudade insular

Cingindo o coração da humanidade

Vasco Martins

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