Amor deram origem a Lura, uma cantora que se foi aventurando na descoberta da sua essência, que agora se materializa num álbum com melodias e palavras escolhidas a dedo.
“Herança” conta uma história de descoberta e de apropriação de uma cultura que sempre foi sua, mesmo antes de a conhecer.
“Porque é que os meus pais falam crioulo e eu não?” foi uma das muitas perguntas que Lura se colocou enquanto crescia, revelou a cantora durante o concerto de apresentação do novo disco.
Apesar do outono já ter chegado a Portugal, a noite convidou todos a saírem de casa e a irem até ao Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, assistir ao concerto de Lura.
O ‘cota Bonga’, como lhe chamou a cantora, foi um dos que não faltou ao chamado, mas a moldura humana era de fazer inveja a qualquer concerto de fim-de-semana, apesar deste ter sido numa terça-feira, após uma jornada de trabalho.
O tema “Di Undi Kim Bem” deu início ao concerto, retratando o início das interrogações sobre a sua origem.
Deste álbum, cantado integralmente em crioulo, fazem parte canções como “Mantenha Cudado”, “Sema Lopi” ou “X da Questão” que Lura interpretou pela primeira vez na companhia da sua nova banda liderada por Toy Vieira, diretor musical e produtor do disco. Para além de Toy Vieira, também Hernani Almeida, Naná Vasconcelos e Richard Bona são músicos de peso com participações neste disco.
Descontraída e alegre, bem ao seu estilo, a cantora interpretou a música que dá nome ao disco, “Herança”, com um arranjo feito especialmente para a ocasião.
“Olhei para este tema e pensei: ‘É isto! É este o nome que quero dar ao disco”, explicou num dos vários momentos de interação com o público.
Obrigatória seria a homenagem à sempre presente Cesária Évora, com “Moda Bô”, diva a quem Lura dedicou um dos seus mais recentes projetos, o espetáculo ‘Lura canta Cesária’.
Em seguida, cantou um dos singles que aguçaram a curiosidade para este disco e que já faz sucesso, “Maria di Lida”. Dedica-a às mulheres lutadoras, que lutam pela sua dignidade e pela sua família, uma das características mais vincadas da mulher cabo-verdiana que, além-fronteiras, também luta por manter vivas as memórias do seu país e por transmitir esse legado aos filhos. Assim fizeram os pais de Lura e muitos outros espalhados pela diáspora.
“Nhu Santiago” é o tema que junta Lura e Elida Almeida, a quem a cantora fez questão tecer elogios durante o concerto, destacando as suas qualidades como cantora e compositora e colocando-a entre os melhores da nova geração de cantores cabo-verdianos.
Chegada a hora do funaná, o primeiro passo foi livra-se dos desconfortáveis saltos altos. Segundo passo: passar as diretrizes aos menos habituados à dança e, por fim, pôr toda a gente a mexer.
Percebeu-se que a timidez não era um problema naquela sala e, sem demoras, todos assentiram ao pedido de Lura e dançaram ao som de “Somada”.
Lura deu o exemplo e não se intimidou no momento de atar o pano à cintura e mostrar o balançar da sua anca.
A noite já ia longa, mas ainda houve tempo para os sobrinhos de Lura subirem ao palco para a surpreender com um ramo de flores e para mais um pouco de música.
Os temas “Nha Vida”, “Na Ri Na” e “Sabi di Más” fecharam a noite deixando no ar a certeza de que valeu a pena esperar cinco anos para ouvir mais um disco de Lura.
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