Hamilton Jair Fernandes falava em entrevista à Inforpress, a partir de Bogotá, na Colômbia, país que acolheu a 14ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Presente na cerimónia de ratificação da morna como património da humanidade, este responsável, que acompanhava o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, não escondeu a sua alegria em ver o reconhecimento deste género musical e o reconhecimento do trabalho feito pelos técnicos do IPC.

“Normalmente, foi uma sensação de júbilo porque é o coroar de um trabalho cientificamente muito bem conduzido, com um forte engajamento técnico nacional, mas sobretudo, por ver reconhecido a grandiosidade da própria identidade do povo cabo-verdiano, neste caso traduzido num género musical que é a morna”, realçou.

Para além de esta classificação versar a morna enquanto prática musical, Jair Fernandes explicou que ela abarca também as dimensões sociais, antropológicas e culturais de Cabo Verde, ou seja, não é apenas o género musical que foi classificado, mas a própria prática social a ela associada.

Práticas essas que constam da argumentação do dossiê de que a morna faz parte de todo o ciclo da vida do cabo-verdiano, isto é, exemplificou, desde o nascimento com os rituais associados ao sétimo dia em que aparecem a morna, até a morte em que também a morna tem estado cada vez mais presente nos cortejos fúnebres.

Esta classificação, segundo referiu este responsável, já era de se esperar, uma vez que, depois da entrega da candidatura, em Março de 2018, foram acompanhando todo o processo e durante as quatro fases de avaliação não foi feita nenhuma observação ao dossiê.

Ciente do trabalho feito pela Comissão Técnica e Científica do processo Morna e toda a equipa que fez a preparação da candidatura do país, o Governo vai no dia 19 atribuir Medalha de Mérito Cultural de primeiro grau a todos os envolvidos.

Para o IPC, trata-se de reconhecer um trabalho “notório, um trabalho de excelência, muito parabenizado e muito elogiado” e um trabalho que envolveu engajamento e investimento.

Conforme referiu, este misto de reconhecimento acaba por ser um desafio para os investigadores nacionais e para os técnicos do instituto, o que pressupõe uma “maior atenção e aumento de pressão”.

“Quando digo pressão é no sentido de que é esperado sempre mais e melhor do IPC e dos seus técnicos, e, por outro lado, também acho que não deixa de ser justo este reconhecimento porque é uma instituição que há muitos anos têm estado a marcar a sua posição dentro do contexto da governação do país”, disse, elencado o trabalho feito para a classificação da Cidade Velha como património da Humanidade e outros trabalhos que os levaram a ser galardoados com vários prémios, entre as quais o prémio Mélina Mercouri atribuído este ano pela Unesco.

Jair Fernandes, realça ainda, que este reconhecimento por parte do Governo acaba por trazer novos desafios à instituição e uma nova abordagem à questão cultural e patrimonial no país, exigindo também dos próprios técnicos uma “especialização cada vez mais necessária e cada vez mais aprofundada”.

Em relação ao desafio da implementação do Plano de Salvaguarda, Fernandes reafirmou que o Orçamento do Estado de 2020 vai permitir dar repostas em certa medida a essa questão.

O plano que abarca quatro eixos de intervenção, nomeadamente a investigação, disseminação e formação, turismo cultural e marca do território a partir da morna, segundo informou será implementado pela comunidade morna (músicos, investigadores, estudiosos, as escolas, as associações) e o IPC terá apenas o papel de coordenar os vários actores envolvidos.

Fez saber que no próximo ano uma equipa da Unesco estará em Cabo Verde para produzir os primeiros relatórios relativamente a este compromisso assumido através da Convenção 2003, isto é, o Plano de Salvaguarda do Património Cultural e Imaterial.

No passado dia 12, a Morna foi oficialmente classificada como Património Cultural Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), com a aprovação do dossiê, em Bogotá (Colômbia) durante a 14ª reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

O dossiê de candidatura da morna, com mais de 1.000 páginas e cerca de 300 entrevistas, passou sem nenhuma objecção dos 24 países presentes na reunião do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

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