O quarto e último dia do Atlantic Music Expo terminou com a habitual noite de Sacem. Em palco estiveram Ron Savage Trio, dos Estados Unidos, Samia Ahmed, do Marrocos, Mounawar, de Reunião, Lura, de Cabo Verde e Sidi Wacho, do Chile.

O último dia do Atlantic Music Expo, à semelhança do que aconteceu dias anteriores, esteve recheado de muita diversidade musical. Os Day Cases, no Palácio da Cultura Ildo Lodo, com Silvano Sanches, de Cabo Verde, e Toto St de Angola, deram o pontapé de saída nas atuações.

Melissa Fortes foi a primeira artista a subir ao palco da rua Pedonal. A artista, descendente de pai cabo-verdiano, fez uma viagem por vários ritmos desde soul, funaná e morna, nesta que foi sua primeira atuação a solo em Cabo Verde e dividiu o palco com Dino D’Santiago.

"Fiquei muito contente, o público esteve vibrante, senti o amor do público e estou muito feliz mesmo", disse no fim da sua atuação e prometeu regressar brevemente para dar a conhecer "melhor" o seu trabalho.

O afrojazz também marcou na performance de Pamela Badjogo, artista natural do Gabão, que esteve pela primeira vez no AME. No fim da atuação Pamela estava muito satisfeita com a reação do público. "As pessoas são muito calorosas. Quarenta minutos não são suficientes, mas somos muitos artistas e temos que dar lugar ao próximo. Quero voltar e conhecer melhor a cultura e a música e cantar mais", confessou no fim.

E aos poucos a rua Pedonal enchia-se de gente. Era a vez do Wesli, natural do Haiti apresentar-se no Show Case. Energia, boas vibrações tomaram conta do público que dançou ao ritmo do afro-roots e reggae e interagiu com o artista.

"Não estava nada a espera desta receção. Trouxe algo típico do Haiti e pensei que se calhar podia funcionar e afinal percebi que temos as mesmas raízes, e isso foi muito especial. Temos algo em comum que é a sensualidade da dança", afirmou satisfeito, ele que foi o último artista a atuar no Show Case do AME 2017.

O palco agora mudava de lugar. A Praça Luís de Camões recebeu o encerramento do AME com a noite de Sacem.

Ron Savage Trio, grupo conhecido dos que acompanham o AME e o Kriol Jazz, fez as honras da casa. Com mais um elemento na banda, o grupo convidou a cantora Nádia Washington para cantar e fazer as delícias do público amante do jazz. Ron Savage, líder do grupo, lembrou que este é o quinto ano que atuam em Cabo Verde e agradeceu o carinho do público.

A atuação que se seguiu trouxe ritmos tradicionais do Marrocos. Samia Ahmed estava satisfeita no fim da atuação. "Para mim a troca de experiência é uma mais-valia para o meu percurso e foi o que aconteceu aqui. Fiquei agradavelmente surpresa pela forma como os cabo-verdianos lidam com a música", avançou. E revelou que gostaria de gravar com músicos cabo-verdianos, "numa fusão de estilos improváveis".

E do outro lado do continente chegou uma mistura de Pop, Rock, Blue e Zagoma (estilo tradicional da Reunião). Mounawar, natural da ilha da Reunião, no Oceano Índico, revelou-se uma agradável surpresa para o público que não ficou indiferente aos acordes da sua guitarra.

"Foi um prazer enorme estar aqui e queremos voltar para um show mais longo. Conheci um pouco da música de Cabo Verde ouvindo Cesária Évora e Lura e posso dizer que o que nos une é a 'sonoridade das ilhas'", disse Mounawar, no fim da sua atuação.

Lura, a atuação mais aguardada da noite, encheu o palco com a sua presença. Tabanca, funaná, morna, ecoaram na sua voz forte e logo no arranque da sua atuação falou sobre a experiência de ser mãe e garantiu que desde então sente-se uma mulher "mais forte e madura".

"Ser mãe foi um experiência única. Os direitos da mulher não estão a ser muito valorizados. Quando uma mulher é mãe, as pessoas reparam no bebé e depois só olham para a mãe para saber se está gorda ou magra, reparam em coisas fúteis e esquecem da importância que foi o facto de ter sido mãe. As mulheres precisam e merecem ser acarinhadas", desabafou em entrevista.

A cantora cantou e encantou com com temas do seu último álbum e lembrou o sucesso "Na ri na". "Fico sempre contente quando canto em Cabo Verde. É o meu povo, falamos a mesma língua assim existe uma troca mais direta", terminou.

A última atuação do AME 2017 esteve a cargo do grupo Sidi Wacho, do Chile. No palco apresentaram uma fusão de ritmos latinos e rap francês com mensagens de paz e amor ao próximo.

AME é uma montra magnífica os diretores artísticos, Alfredo Caxaj

Alfredo Caxaj é diretor artístico do Festival de Jazz e Músicas do Mundo, o SunFest, que acontece no Canadá, e há três anos marca presença no AME à procura de novas oportunidades para artistas nacionais e internacionais.

Quem acompanha os Show Cases do AME já deve ter reparado no Alfredo Caxaj que sempre está à frente do palco muito animado, dançando e ‘puxando’ pelos artistas. "Muitos estranham o meu 'feeling' mas sinto a música no coração e expresso através da dança", garante.

Lura, Sara Tavares, Carmen Souza, Tcheka e Élida Almeida foram alguns dos artista que Alfredo levou ao Canadá.

"Esta é uma montra magnífica para nós diretores artísticos e nos permite  não só conhecer artistas nacionais, mas também de outras partes de África.  Cabo Verde é maravilhoso, a sua potência musical é incrível e posso compará-la à Cuba. Todos os estilos dentro da música cabo-verdiana são fascinantes", afirmou em entrevista ao SAPO.

Este ano, Caxaj fez parte do corpo de jurados que selecionou os artistas para esta edição. "Acredito que o evento está muito bem organizado e se tivesse que deixar uma crítica diria que deveria ser alargado por mais tempo, três ou quatro dias não são suficientes", ressalva entre riso.

Sempre muito animado durante as atuações, garante que enquanto estiver "com vida e saúde" vai marcar presença no certame. "Viajo pelo mundo e visito muitos mercados mas aqui o mercado é único por ser um espaço pequeno e íntimo", terminou.

Este ano, a organização introduziu um novo projeto no certame, o LusAfro, e para o produtor de eventos, Augusto Veiga, esta edição foi ‘muito interessante e intenso’. "O projeto LusAfro permitiu muita criação, intercâmbio e o resultado foi muito bom".

O projeto LusAfro é uma iniciativa do parceiro do AME, o Piranha, da Alemanha, em parceria com a Harmonia. A AV Produções foi o coordenador do projeto a nível nacional. "Não sei se o projeto vai continuar, cabe agora a organização analisar e saber se deve ou não continuar com o projeto. Mas acredito que pelo sucesso que teve internamente deve continuar”.

Para o produtor, o Atlantic Music Expo 'atingiu a maioridade'. "Acho que estes cinco anos foram de adaptação e amadurecimento. E este ano o projeto atingiu a maioridade, as pessoas agora acreditam mais e este ano houve uma maior adesão de artistas e senti que todos os participantes agora vêm o AME como uma forma de fazer negócio e expandir o seu trabalho", finalizou.

AME já não é um mercado de world music, afirma-se como um mercado de música, ministro

O ministro da Cultura, Abraão Vicente, disse que a organização conseguiu alcançar os objetivos propostos e que a experiência foi positiva, apesar de ter uma equipa renovada. "O júri fez uma excelente seleção. Conseguimos vender espetáculos, conseguimos manter os parceiros base e reforçar algumas parcerias", avançou.

Em termos da programação, o ministro frisou o fato de este ano ter sido alargado o âmbito do AME para música experimental, introduzindo uma nova secção, o LusAfro. "A experiência de laboratório, ponto de encontro, produção para ser apresentado durante o festival foram os pontos-chave deste projeto".

Em relação a parte teórica do evento, como os workshops, o governante disse que é preciso mais financiamentos por parte do estado para internacionalizar esta vertente do certame. "Mas a nível geral acho que fizemos um evento muito interessante, muito positivo que trouxe muito mais público ao centro da cidade".

"Agora estamos totalmente voltados para a filosofia que deveria ser adotada desde o início: a filosofia do mercado que é fazer negócio. Há já uma nova roupagem no AME. O AME já não é um mercado de world music, agora afirma-se como um mercado de música", garantiu.

E para terminar revelou que a edição de 2018 do Atlantic Music Expo já tem novo logo e orçamento de estado garantido. "Já na próxima semana começamos a trabalhar na próxima edição", finalizou.