Trinta anos depois, ambos recordam que integraram o Grupo Infantil, de dez elementos, que actuou logo depois de Vasco Martins, que procedera à abertura oficial, e do qual faziam parte ainda Homero D. Brito (viola baixo), João D. Brito (viola ritmo), Helton C. Lima (viola solo), Amílcar Chantre (bateria), Nivaldo Sousa (tumbas), Emanuel de Jesus (percussão), Anelo Dias (vocalista) e Ioná Graça (vocalista).

Hernani Almeida, hoje guitarrista e arranjador, nesse dia actuou aos teclados, ao passo que Solange Cesarovna fechou o trio de vocalistas do grupo.

Hoje, com 41 anos, instrumentista e intérprete conhecido da música de Cabo Verde, Hernani Almeida ainda se lembra “da camisola branca e do calção amarelo desportivo” que trajava naquela tarde de sábado, actuação que resultou num “show da gaita”.

“Foi ‘nice’ e curioso para mim como criança ver o espanto dos adultos perante algo tão supostamente simples de fazer, tocar”, concretizou, em entrevista a Inforpress.

Na altura, recorda Almeida, foi Mick Lima, homem da percussão e do baixo, que tratava de toda a parte organizativa, desde ensaios, repertório e disciplina, pois “era uma criançada frenética”, que pela primeira vez subia a um palco, e “logo o da Baía das Gatas”.

Questionado sobre o peso desse momento na sua decisão de seguir uma carreira no mundo música, Hernani Almeida foi taxativo, “não me fez peso nenhum”, e explicou:

“Na altura não pensei em trabalhar como artista e nunca tive o sonho de subir em palcos, o meu sonho de infância era ser piloto de aviação”, concretizou, lembrando que só decidiu dedicar-se à musica já adulto.

“Aí comecei a gostar mais seriamente da ideia de ter uma forma de comunicar com os seres humanos e com a natureza em geral, através do uso de sons, criando emoções no coração das pessoas, isso sim acho fantástico”, precisou.

Mas, mesmo assim, considera que um festival como o da Baía das Gatas é, “ou deve ser”, um “palco excelente” para o lançamento de novos artistas, sendo que este, no início, era o “mais nobre objectivo” do certame.

“Eu pessoalmente gosto do festival mais por causa da festa, da reaproximação familiar e dos amigos, como se fosse a época do Natal ou festa de fim de ano, é claro que quanto melhor for a organização e o repertório, melhor, dançamos”, concluiu Hernani Almeida.

Se subir a um palco como o da Baía das Gatas não fez “peso nenhum” a Hernani na decisão abraçar a carreira musical, já Solange Cesarovna não tem dúvidas: “Foi um dos momentos marcantes, que me permitiu confirmar o que já sentia desde os 6 anos, que o palco é a minha casa, e que nada é mais mágico e impactante do que a emoção de cantar para um grande público e a felicidade de partilha que a música proporciona”.

A cantora, por isso, recorda-se desse dia com “muito entusiasmo”, porque se tratou de um concerto “inesquecível” em que cantou a coladeira “Força de Mãe”, a lambada intitulada “Chorando se foi”, da Kaoma, muito em voga na altura, e também um tema infantil “Atchim e Espirro – Ali Babá” que estava igualmente na moda entre a camada infanto-juvenil.

“A resposta do público foi magnífica”, recorda Cesarovna, que ainda guarda filmagens da actuação do grupo, com um “público vibrante” que “dançava, gritava e batia imensas palmas”.

“O mais interessante é que tínhamos um grande público a assistir o nosso show, ainda que o mesmo tenha acontecido às 05:00 da tarde, ao brilho e luz do Sol”, reforçou a cantora que aos 07 anos já tinha ganhado a festival de pequenos cantores.

Concorda que o festival é um “excelente palco” para o lançamento de novos artistas de São Vicente e de Cabo Verde, mas deseja uma “maior dinâmica” na presença de jovens talentos, lamentando, igualmente, que a parte infantil seja hoje “praticamente inexistente”.

“Depois de 35 anos de um grande festival com a Baía das Gatas vale sempre a pena refletirmos juntos novas dinâmicas necessárias para manter o enorme desafio que é o de o elevar a patamares ainda maiores do que já é, grande”, assinala Solange Cesarovna.

“Acredito que os músicos preciosos e extraordinários da música tradicional cabo-verdiana, que personificam a alma e a identidade do povo cabo-verdiano, através da música, devem também subir ao palco da Baía como cabeças-de-cartaz e figuras centrais deste festival histórico”, concluiu.

A 35ª edição do Festival Internacional de Música da Baía das Gatas é inaugurada esta sexta-feira pelo trio de vozes cabo-verdianas formado por Cremilda Medina/Djocy Santos/Ceuzany, de acordo com o alinhamento divulgado pela organização.

O mais antigo festival de música de Cabo Verde, que este ano rende homenagem aos mindelenses, reúne um leque diversificado de músicos e bandas do país e do estrangeiro, e, para o primeiro dia, estão ainda previstas as actuações da banda Tabanka Djaz (Guiné-Bissau), do reggae-man Ky-Mani Marley (Jamaica) e, para fechar o dia, a brasileira Ludmila.

No sábado, 10 de Agosto, Vasco Martins é o primeiro a subir ao palco, seguido de uma animação pelo Grupo de Carnaval de São Vicente e ainda Grace Évora, Beto Dias, Suzana Lubrano, Deejay Telio (Angola) e Davido (Nigéria).

Para domingo, 11, terceiro e último dia do festival, o alinhamento prevê abertura com o grupo Hip Hop Skils Muviment (Cabo Verde), seguido de Yasmin (Portugal), Loony Johnson, Ricky Man e, a fechar, a banda portuguesa Wet Bed Gang.

O festival teve a sua primeira edição no dia 18 de Agosto de 1984, é realizado anualmente na praia da Baía das Gatas, a oito quilómetros da cidade do Mindelo, e desde aquela data apenas em 1995 não se realizou, devido a uma epidemia de cólera que assolou Cabo Verde.

Anualmente, a Câmara Municipal de São Vicente, que organiza o evento, reserva uma verba no orçamento municipal para fazer face às despesas com a logística, viagens e cachet de artistas de Cabo Verde e do estrangeiro, sendo certo que o grosso do montante para suportar o evento, de acordo com a autarquia, provém de patrocínios de empresas.

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