No ano em que o festival de Santa Maria assume pela primeira vez uma organização privada, pela empresa CV All Events, o público está na expectativa. O evento atravessa uma nova fase, mas história que o construiu mantém-se um marco. O SAPO Fest foi conhecê-la.
"A história do festival é a história da ilha do Sal”, Carlos Lopes

"A história do festival é a história da ilha do Sal, porque tudo o que aqui é feito é com base na vontade da comunidade", contou Carlos Lopes, o ex-vereador do Desporto da Câmara Municipal do Sal.

O evento teve origem na praia de Jorge Fonseca, onde os jovens artistas actuavam por vontade própria na década de 1980 até à altura em que a Câmara decidiu homenagear o dia do Município com actuações ao ar livre na praia da Santa Maria.

“A filosofia era de massificação da cultura popular”, contou o ex-vereador que participou na organização do festival desde a primeira edição até 2004, tendo sido presidente do mesmo em 2002 e 2004.

"Nós tínhamos uma maneira sui generis de organizar o festival em que todos participavam na sua execução, o evento começava a ser organizado a partir do momento em que a edição anterior era finalizada", disse.

"Todos cofinanciavam o festival e para isso tínhamos níveis de financiamento - desde o taxista, que podia dar 5 contos, porque sabia que ia beneficiar com o festival, até ao hotel Morabeza ou a ASA que faziam investimentos muito mais avultados", explicou.

Por outro lado, a participação dos artistas era toda realizada de forma voluntária e através de parcerias. "A princípio mandávamos cartas para os artistas a pedir a sua participação, mas depois de 2002, o processo inverteu-se e passaram a ser os artistas a contactar-nos, e mediante isso nós tínhamos que ouvir a opinião pública para saber quem queriam ouvir", relembrou.

As despesas de deslocação eram pagas pela organização: "E os artistas queriam participar por causa do convívio que proporcionava a criação de novos trabalhos, contactos e novos laços na música.”

Outro dos pontos que o evento teve seu favor foi o facto de ter poucos casos de insegurança: "O festival sempre foi seguro por que nós tínhamos um grupo de especialistas que acompanhava quem chegava ao Sal nesses dias e conseguia identificar as pessoas conhecidas por actos de delinquência e monitorava-os."

Foram muitos anos por trás de um festival que acabou por ganhar um nome internacional e uma identidade muito próxima do seu público. "Este ano é a primeira vez que o festival tem estes moldes por isso é difícil dizer se as pessoas vão aderir ou não, mas há muito tempo que já era preciso alterar a sua gestão". No entanto, Carlos Lopes considera que a organização deveria ter sido em 50 por cento com a Câmara para assegurar o interesse dos munícipes.

“Não tenho dúvidas que toda a gente vai estar em Santa Maria”, jornalista e teclista, Moisés Évora

Moisés Évora foi um dos que acompanhou todas as edições do festival desde a sua criação, tanto como repórter, como em alguns casos na música em solos e acompanhado por outros artistas.

“O primeiro festival contou só com a prata da casa, foi tudo muito improvisado, mas foi lá que começou a magia”, relembra.
O jornalista ainda é do tempo em que o palco era montado junto ao pontão da praia. Viu grandes nomes passar por lá: Titina, Tito Paris, Paulino Vieira, Boy Gê Mendes, Chico Serra, Bau, Bana, Cesária Évora; e da geração mais jovem, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Lura, Ritinha Lobo.

“Eu lembro-me no princípio que as pessoas vinham e tinham que ficar mais perto porque o som não era tão bom e também não havia profissionais de som como há agora, mas havia uma grande vontade de levar o festival cada vez mais longe”, afirmou.

E foi por isso que artistas como Ildo Lobo começaram a dar a cara pelo evento que trouxe ao Sal nomes internacionais como Gal Costa, Martinho da Vila, Karen Jones, dos EUA, Kassav, Alpha Bondie, Youssou N'Dour, entre outros.

Um dos momentos altos, para o jornalista, foi a dupla que Ildo Lobo e Martinho da Vila fizeram juntaram em palco com o tema "Mulheres". Outro dos momentos que melhor recorda foi a presença de Gal Costa em que a artista e a sua banda fizeram uma actuação digna de se recordar.

Para Moisés Évora, fica a expectativa de um festival que este ano terá uma estrutura completamente diferente e em que o envolvimento do público é muito menor. "Não há nenhum festival que não tenha críticas, este por ser em moldes diferentes tem colocado mais as pessoas na expectativa, mas de uma coisa não tenho dúvida, é que toda a gente vai estar em Santa Maria, concordando ou não com o cartaz, alguns até vão dormir na praia de tanta 'sabura'", disse com convicção.

“Sou a favor de colocar o festival com entrada paga”, Nelson Rendall, ex-vereador da Cultura da CM do Sal e teclista

O ex-vereador da Cultura da Câmara Municipal do Sal, Nelson Rendall, é o homenageado da noite de guitarra deste ano.
O músico seguiu o festival desde o princípio até aos dias de hoje. Primeiro atrás do seu teclado, na primeira edição com um palco improvisado em cima da carroçaria de um camião.

Nos anos seguintes afirma que as condições foram melhoradas. A partir de 2004 a 2008 passou a assumir a organização do evento e criou a noite da guitarra que antecede todos os anos o certame.

Inspirado na obra do seu avô, a noite de guitarra tinha como objectivo: "Ser uma noite em que o guitarrista tratava a sua guitarra por tu."

Com Nelson Rendall, a filosofia do festival passa a ser "As festividades do município", que começavam um mês antes do festival, em que eram organizados concertos por toda a ilha, até ao dia que chegava a Santa Maria.

"A grande lembrança que tenho, foi o encerramento de 2006 em os que Kassav puseram toda a gente a dançar até às 8 da manhã, quando já estava toda a gente quase a dormir e em 2007 com a actuação de Cesária Évora", relembrou.

 “Sou a favor de colocar o festival com entrada paga porque no primeiro festival começámos com um orçamento de 16 mil escudos e chegámos a ter um investimento de 35 mil, mas isto foi numa altura em que não havia crise, portanto, é normal que o festival tenha de evoluir para estes moldes”, concluiu.

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