Em conjunto com alguns músicos progressistas da época, entre os quais Vasco Martins, Pinúria e Dany Mariano, Valdemiro Ferreira ou Vlú como é conhecido sentiu a necessidade de poder mostrar que a música em Cabo Verde poderia abranger outros géneros que não apenas a tradicional morna e coladeira.

Conforme relata, “depois da independência, o governo de Cabo Verde decidiu eleger a morna e a coladeira como música tradicional. Nos já fazíamos uma música diferente, música de fusão inspirada no afro-rock, jazz, mas ainda assim música cabo-verdiana, mas não nos aceitavam e diziam que era uma música alienada e assim éramos marginalizados”.

No entanto, o grupo de jovem resistiu à pressão imposta, “fomos reduzidos à galeria Nho Djunga, não nos convidavam para nenhum evento nacional e sendo assim tínhamos necessidade de criar um palco para a nossa música. Foi nesta sequência que surge o festival”, conta o artista.

Este grupo, na altura, jovens músicos ávidos de sensações e novas experiências, insistiam em tocar outros géneros musicais. “Éramos tidos como rebeldes então a nossa luta era mostrar que a música de Cabo Verde é também aquilo que a nossa inteligência musical é capaz de cria”, mesmo sabendo que iam contra os ideais políticos impostos pelo governo da altura.

“Eu e o vasco éramos mais inovadores e sentimos a necessidade de criar um palco para a nossa música”.

As primeiras edições do festival

Em 1984, enquanto tocavam na Galeria Nho Djunga, a música que tanto gostavam, e da necessidade de revelar as novas tendências surgiu à ideia de actuar num espaço mais amplo, mas não tinha autorização oficial para fazê-lo. “Pensámos e decidimos tocar num bar que havia na Baía das Gatas, a ideia era libertar a inteligência musical”, explica Vlu.

Do bar na Baía ao festival foi uma questão de tempo. A partir desse momento, decidem organizar um festival naquele local. A única condição é que fosse um palco. “Nunca pensámos que o festival da Baía ia se transformar naquilo que é hoje. O nosso objectivo inicial era estimular a criatividade e contribuir para uma caminhada que desenvolvesse a música de cabo verde”, acrescenta. Por isso, acredita que “a criação do festival deve ser atribuido aos músicos e devemos todos ficar contentes com o resultado ».

Para Vlú, “a primeira edição do Festival da Baía das Gatas foi sem dúvida o melhor momento, o de maior emoção”. Foi o momento em que as pessoas abraçaram a ideia. “O festival foi uma necessidade de liberdade não só na música”.

Após a independência, “o governo – que era pró-comunista – criou um regime caracterizado por uma falta de liberdade de expressão e como tudo era feito pelo estado e o festival era feito por nós, cidadãos anónimos, dava certa sensação de liberdade”, recorda. “Se hoje Cabo Verde tem outros estilos musicais é graças ao “open mind” que criámos na altura”, diz orgulhoso.

De acordo com Vlú, o festival passou a representar um ponto de encontro que faltava à ilha, pois, “muitos dos que se encontravam emigrados tinham agora um motivo para regressar à terra e a nossa música é um motivo forte … para os turistas também”. Essencialmente, “devia ser uma festa para todas as pessoas, pois na sua génese estava a ideia de um acontecimento unificador do povo” acrescenta.

Embora o objectivo do festival fosse valorizar a música nacional, desde as suas primeiras edições houve participação de grupos internacionais. “O intuito era o de dar mais brilho ao evento e não substituir a nossa música nacional” lembra o activista musical que explica que foi assim que se deu o pontapé de partida para a internacionalização do certame. 

O festival começou a ganhar contornos de um evento internacional e a organização não tinha meios para dar continuidade às expectativas que, de ano para ano, iam crescendo em quem assistia ao evento, decidiram entregar a organização do Festival à Câmara Municipal, que era a “única entidade local com capacidade para fazer crescer a iniciativa”.

Presente e futuro

Para o músico vanguardista actualmente o Festival da Baía das Gatas já nada tem a ver com os objectivos com que inicialmente foi criado. “Quando tivémos a ideia do festival o objectivo era fazer com que a música de Cabo Verde crescesse”. No entanto, “quando a organização passou para a Câmara Municipal, passou a ser um acontecimento meio politico, que envolve a economia nacional”, desabafa. “Na altura o palco era reservado à malta jovem, mas hoje não, preferem apostar naquilo que consideram grandioso em vez do criativo musical, intelectual e construtivo. É uma falha grande”, e remata dizendo, “a Câmara deveria rever este conceito e todos nós ganharíamos com isso.”

 

Baía das Gatas já foi um festival pago

Muito se tem falado da gestão privado dos festivais que assim passam a ser pagos. Aliás, a maioria dos festivais realizados actualmente no país estão a ser feitos nestes moldes, e o Baía das Gatas é o único que ainda resiste.

Segundo Vlú, a ideia de tornar o festival de Baía num festival pago é viável, pois segundo conta, “isso não seria uma novidade no Baía, fizemos um festival pago em 1987, mas como o nosso conceito de festival era sempre o povo de São Vicente deixamos a possibilidade para os que não tinham dinheiro irem à mesma. Fizemos um gate na entrada da praia e estendemos lado a lado 100 metros de arame. Quem tem dinheiro nos fazia o favor de contribuir e entrar no gate. Quem não tinha dava a volta nos 100 metros de arame e entrava. Nós não criámos nenhum problema quanto a isto ».

Em relação à gestão privada, Vlú defende que “a Câmara não se deve retirar completamente da organização dos festivais, uma vez que cabe a ela cuidar da gestão social e cultural da ilha”. E acrescenta “a camara de São Vicente pode não ser o organizador oficial, mas deve chamar parceiros, não deve fechar-se em si mesmo e sim criar estruturas para a sua boa execução.”

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