Componho sempre à guitarra e num contexto mais acústico e isso coloca destaque na voz, na palavra, no sentimento”, começa por explicar Aline em conversa com o SAPO em Lisboa. “Dentro da Chuva”, o primeiro álbum da cantora sem banda, aparece próximo deste formato mais íntimo, “muito autoral e com muita proximidade com o ouvido das pessoas”. “É muito direto”, resume Aline.

Foi no país de Chico Buarque, Elis Regina ou Tom Jobim que Aline gravou “Dentro da Chuva”. No Rio de Janeiro, encontrou Grabiel Musak, um músico carioca, que gravou e misturou o álbum “com muita intimidade, cumplicidade e sensibilidade para os detalhes, emoção e imperfeição”.

Do outro lado do oceano, saiu um disco do Sul, “mais temperado, mais cálido”, contrastando com “Insular”, o álbum anterior, gravado no outro hemisfério, na Escócia, mais “elétrico e mais rock”.

Aline já cruzou muitas fronteiras e canta-as também neste disco no tema “Um Corpo Sobre o Mapa”. Estas influências dos lugares, dos ritmos e das palavras juntam-se na música e, contrariando definições estéticas, a compositora explica: “Sou um bocadinho daqui, um bocadinho dali e um bocadinho de lá.”

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Apesar de gravado e produzido no Rio de Janeiro, “Dentro da Chuva” foi composto em Luanda, cidade de onde é natural e à qual regressou há cerca de dois anos, depois de ter vivido em Portugal e Espanha, e onde tem uma banda e a expectativa de gravar o seu próximo álbum.

Desde os 18 anos fora de Angola, e com uma ideia de Luanda “muito romantizada, uma espécie de musa”, Aline conta ao SAPO que o regresso a casa está a ser “muito fixe, muito tranquilo, com uma grande sensação de apaziguamento de decisão certa”.

Mas, acrescenta, “independentemente do lugar, há coisas que se leva connosco para onde quer que se esteja”. E isso percebe-se também em canções como “Fuga” ou “Zénite” que nos levam para dentro, para uma “inquietação, um desassossego pessoal”.

Por outro lado, há também um olhar bem atento ao exterior, ao quotidiano, à sociedade e à política, como quando relembra a Angola de 1992 em “Manazinha” ou no elogio às mulheres em “Samaúma”, que em jeito doce entoa: “Nossa luta continua, contra a maré da inverdade, por ela vamos para a rua, tomaremos a cidade.”

É um disco cheio. “É fiel ao que eu sou, tem sido um trabalho de anos encontrar a minha linguagem, a minha voz e sou fiel a isso, e fiel também às mudanças e às descobertas.”

Aline FRazão Dentro da Chuva

Além de cantora e intérprete, Aline é também compositora. “Dentro da Chuva” é inspirado numas linhas de prosa do livro “Como se o Mundo não Tivesse Leste” de Ruy Duarte de Carvalho e “O Conto da Ilha Desconhecida” de José Saramago inspirou o título anterior, “Insular”. Tem temas compostos por José Eduardo Agualusa ou Ondjaki e, à volta das palavras, das línguas e das sonoridades, o quarto disco começa em crioulo cabo-verdiano, com "Peit Ta Segura", passa para francês e continua em português.

Já antes, no disco anterior, cantou “Susana” em kimbundu, língua com a qual tem “uma ligação afetiva, identitária, cultural, musical”. “Grande parte da música tradicional angolana é em kimbundu e isso conecta-nos com outra geração, com o passado do país, com a identidade angolana.”

E é mesmo em Angola que sente que o público entende a sua identidade musical “sem necessidade de definições”. “Sinto-me compreendida e sou recebida de braços abertos de uma forma que em outros lugares não acontece tanto.”

Amanhã, o Lubango recebe Aline Frazão no Casino Olímpia, pelas 21h30. Atua ainda na Catumbela, no dia 5 de outubro, e em Luanda, no dia 20 do mesmo mês. Depois, regressa à Europa. Berlim, Estugarda e Zurique são alguns dos pontos no mapa onde Aline Frazão vai apresentar o disco: “Estou com muita vontade de cantar e de o mostrar às pessoas”.

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