Vandrea Monteiro, também conhecida por Jacky, contou que foi aos 08 anos que começou a ter o primeiro contacto com o teatro, mas que só em 2006, com 18 anos, é que começou a dar passos “mais sérios”, ao integrar a Companhia de Teatro Fladu Fla.

Entretanto, depois de concluir o ensino secundário,  esta jovem teve de partir para Portugal para fazer o curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, deixando um pouco de lado o palco.

“Tanto que gosto de representação escolhi o curso de Jornalismos e como também sou apaixonada por projetos sociais pensava que como jornalista poderia dar voz aos outros e tendo vivido, também em Bela Vista, um bairro carenciado, foi uma experiência fantástica porque isso criou em mim esta vontade de ajudar, de dar voz, de falar, de estar presente e de estar no palco”, disse.

Durante a sua formação superior em Portugal, recordou, recebeu a triste notícia da morte da sua avó e por estar longe de casa e dos familiares começou a sofrer de depressão e teve outros problemas de saúde.

Contou ainda que durante uma consulta uma médica percebeu que ela amava o teatro e em vez de enviá-la a um psicológico, resolveu inscrevê-la numa ação de formação sobre teatro.

“O teatro é tão presente na minha vida que quando a minha avó morreu (…) aquilo foi a minha terapia, eu consegui superar a morte da minha avó com aquilo. A superação começou com o teatro”, afirmou.

Depois desta formação, sempre que vinha de férias a Cabo Verde aproveitava para ensaiar com o grupo Fladu Fla, pois, em Portugal, nunca teve a oportunidade de entrar numa peça, apesar de sempre dar o seu máximo, porque nunca era a escolhida, por “não ser branca e por ter sotaque cabo-verdiano”.

Depois de dez anos a viver em Portugal, Vandrea Monteiro decidiu trabalhar em Inglaterra, onde viveu durante um ano, mas em 2016 recebeu um convite para integrar um projeto ligado à sua área de formação, em Cabo Verde.

Entretanto, a primeira coisa que fez, disse, foi ligar para o presidente da Companhia Fladu Fla, Sabino Baessa, para saber como é que andava o grupo, tendo sido informada de que estava um “pouco parado”.

“Eu queria voltar e Fladu Fla foi o empurrão que eu precisava”, disse, afirmando que o projeto que viria a fazer parte não funcionou, mas continuou no país com o projeto de reativar o grupo teatral, que naquela época era constituído por apenas três mulheres.

“Costumam brincar que eu fiz renascer o Fladu Fla, mas foi todo um trabalho de equipa. Eu voltei, queria começar de novo e também havia pessoas com essa sede e vontade e lá acordamos o Fladu Fla”, enfatizou.

Com 12 anos de carreira, a mesma fonte diz sentir-se orgulhosa pelo facto de ser mulher, mãe, esposa, cidadã do mundo, jornalista e ainda tem a força de ser atriz, porque o que mais lhe motiva é lutar pela afirmação do teatro na ilha de Santiago.

“Já subi palco em Macau (Ásia), em Portugal (Europa) e em Cabo Verde (África) e acho que com 31 anos já fiz muito que me pode dar essa facilidade de falar e de poder fazer coisas boas”, enfatizou.

Vandrea Monteiro, que já esteve na pele de sinhá, na peça “Profecia de um crioulo”, de demónio, no “Homem eterno prisioneiro” e de uma mãe, no “Menos um”, disse que de todos os papéis o que gostou mais foi do demónio.

“Sou apaixonada por essa personagem porque me tira completamente de mim. Aquilo foi brutal, porque é a chorar, babar é tipo um maluco que nasce do chão até ser Amílcar Cabral”, disse, ajuntando que almeja um dia representar uma prostituta ou uma esquizofrénica.

Instada a comentar sobre a participação das mulheres no mundo do teatro, a atriz mostrou-se orgulhosa pelo percurso feito por outras mulheres que hoje lhes permite subir ao palco e representar.

Para além de atriz, afirmou, neste momento está a ter a oportunidade de desenvolver mais as suas habilidades a escrever guiões, uma vez que está a preparar uma adaptação da obra Chiquinho, com a coprodução do grupo Chão de Oliva de Sintra (Portugal).

Sobre o futuro, a mesma fonte vê-se ainda “mais enrolada” no mundo da arte e deseja dar à estampa o seu primeiro livro de crónicas e reativar o seu projeto social “Contacto”.

Sendo que no teatro trabalha à base do voluntariado, a atriz, aconselhou os jovens a não ficarem à espera do apoio do Governo para conseguir realizar algo, mas sim para correrem atrás dos seus sonhos.

“Governo não é a salvação da pátria, porque se formos esperar só pelo Governo este grupo não existiria e eu não seria o que sou hoje”, enfatizou.