No que está a ser descrito como quebrar um tabu no cinema francês, Adèle Haenel acusou publicamente o realizador Christophe Ruggia de assédio sexual.

Aacusação surge no âmbito de um extenso artigo de investigação publicado pelo jornal on-line Mediapart, "#MeToo: Adèle Haenel quebra um novo tabu" (apenas disponível por assinatura).

Embora várias mulheres tenham denunciado o cineasta Luc Besson em junho de 2018 num artigo também do Mediapart, Adèle Haenel, premiada com dois César (os Óscares franceses), é a primeira estrela a dar a cara como vítima de alegados abusos: é bastante conhecida graças a filmes como "Apollonide - Memórias de Um Bordel", "Os Combatentes", "O Homem Demasiado Amado", "La fille inconnue", "120 Batimentos Por Minuto" e "Portrait de la jeune fille en feu", premiado no último Festival de Cannes.

Adèle Haenel diz que Christophe Ruggia a começou a assediar aos 12 anos, após escolhê-la para o que seria o seu primeiro filme, "Les Diables" (2002). O realizador tinha 36 anos.

O artigo descreve um "assédio sexual permanente" entre 2001 e 2004, quando tinha 15 anos, envolvendo desde toques em várias partes do corpo a beijos forçados no pescoço, no apartamento do realizador ou em viagens para festivais de cinema.

A investigação do Mediapart demorou seis meses e foram entrevistadas mais de 30 pessoas ligadas à atriz e ao realizador. O jornal diz ter documentos que corroboram as acusações, incluindo cartas de amor enviadas por Ruggia.

Agora com 30 anos, Adèle Haenel tomou a decisão de revelar o que aconteceu após ver "Leaving Neverland", o documentário sobre os alegados abusos de Michael Jackson.

Embora rejeite apresentar queixa porque acredita que "a justiça ignora" vítimas na sua situação, diz esperar "denunciar o sistema de silêncio e cumplicidade que torna esta [conduta] possível".

Numa declaração enviada pelos seus advogados, o realizador, também conhecido pelos filmes "Le gone du Chaâba" (1998) e "Dans la tourmente" (2011), diz que "desmente categoricamente" qualquer conduta imprópria e que apenas existiu um "relacionamento profissional e afetuoso", considerado o artigo uma difamação.

O movimento #MeToo começou nos EUA em outubro de 2017 com as denúncias de assédio e violação contra o produtor Harvey Weinstein feitas por dezenas de mulheres, incluindo as atrizes Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Mira Sorvino, Ashley Judd, Léa Seydoux, Asia Argento e Salma Hayek.

Surgiram denúncias em vários países do mundo, mas o assunto permanece um tabu na França, onde 100 personalidades, incluindo a atriz Catherine Deneuve, coassinaram no Le Monde em janeiro de 2018 uma carta aberta na qual se lia que os homens estavam a ser injustamente alvo de acusações de má conduta sexual por causa do #MeToo e deviam ser livres para importunar as mulheres.

Um mês mais tarde, o cineasta austríaco Michael Haneke, duas vezes vencedor da Palma de Ouro em Cannes, também considerou que o movimento se tornara uma "caça às bruxas" que gerava um novo "puritanismo" que prejudicava a criação e tornava "cada vez mais difícil" um debate "sobre este tema tão importante".

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