Depois da estreia mundial em agosto, em Hamburgo, no Internationales Sommerfestival 2020, a mais recente criação da premiada coreógrafa cabo-verdiana estará no palco da Culturgest, em Lisboa, a 24, 25 e 26 de setembro, e nos dias 29 e 30 de outubro, no Rivoli - Teatro Municipal do Porto.

O título desta criação de Marlene Monteiro Freitas - baseado na obra "La littérature et le mal" ("A Literauta e o mal"), de George Bataille - faz múltiplas referências à ambivalência do mal, que pode significar mal-estar, desconforto, dor, sofrimento, agonia, tristeza, tormento, carência, horror, mas também o mal em si mesmo.

Por outro lado, “Embriaguez Divina” marca o mal como "um estado de delusão divina, de êxtase dionisíaco", segundo a descrição de um texto da Culturgest.

Em palco, "um grupo de pessoas - para explorar as várias formas do mal - afoga-se num mar de papel e transforma-se num coro, numa tribuna, numa tonalidade prenunciadora de melancolia, [e] é assaltado por visões, ao mesmo tempo que permanece observado e vigiado", acrescenta o texto de apresentação.

Segundo a coreógrafa, citada neste texto: "A forma como Bataille escreve sobre o mal emociona-me muito. Por exemplo, quando ele distingue entre o mal sádico e o mal cometido com boas intenções; ou entre o mal em si, e a forma do diabo. O diabo pode ser engraçado. Ele esgueira-se e brinca connosco. Se as coisas não fossem tão más, o diabo seria um personagem ótimo, divertido e colorido. Gosto muito de todas essas pequenas variações do mal".

"Mal - Embriaguez Divina", tem coreografia de Marlene Monteiro Freitas e, como intérpretes, Andreas Merk, Betty Tchomanga, Francisco Rolo, Henri “Cookie” Lesguillier, Hsin-Yi Hsiang, Joãozinho da Costa, Mariana Tembe, Majd Feddah e Miguel Filipe.

O desenho de luz e espaço é de Yannick Fouassier, o apoio à criação do espaço, de Miguel Figueira, a direção de cena, de André Calado, o desenho de som, de Rui Dâmaso, a pesquisa, de Marlene Monteiro Freitas e de João Francisco Figueira, a dramaturgia, de Martin Valdés-Stauber.

A peça tem produção de P.OR.K (Bruna Antonelli, Sandra Azevedo, Soraia Gonçalves - Lisboa) e Münchner Kammerspiele (Munique)

A coreógrafa - que tem sido considerada pela crítica de dança como uma das vozes mais originais da atualidade, galardoada com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, em 2018 - cria "mundos opulentos e poéticos" e inspira-se em motivos mitológicos, ao mesmo tempo que brinca com referências da alta cultura e da cultura pop, como fez, por exemplo, em de "Marfim e carne — As estátuas também sofrem" (2014) e "Bacantes - Prelúdio para uma Purga" (2017).

Marlene Monteiro Freitas, 40 anos, nasceu em Cabo Verde, onde cofundou o grupo de dança Compass e é cofundadora da P.OR.K, estrutura de produção sediada em Lisboa.

Em 2018, quando foi galardoada com o Leão de Prata da Bienal de Veneza, pela carreira, o júri destacou a “presença eletrizante e o poder dionisíaco” das suas produções, considerando-a “uma das mais talentosas da sua geração”, interessada na “metamorfose e deformação”, que “trabalha mais com as emoções do que [com] os conceitos, e que apaga as fronteiras do que é esteticamente correto”.

Quando a criadora foi galardoada, em declarações à agência Lusa, sublinhou que, no seu trabalho, procura usar a transgressão para criar metamorfoses, e que dá atenção particular à emoção no seu processo criativo.

O seu trabalho, que combina por vezes o drama e a comédia, e tem sido elogiado pela crítica internacional pela expressividade e criatividade, tem sido apresentado em vários países, desde Portugal aos Estados Unidos, Canadá, Israel, Espanha, Itália e Coreia do Sul.

Em Cabo Verde cofundou o grupo de dança Compass. Estudou dança na P.A.R.T.S., em Bruxelas, na Bélgica, na Escola Superior de Dança e na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Trabalhou com Emmanuelle Huynn, Loïc Touzé, Tânia Carvalho, Boris Charmatz, Clara Andermatt, entre outros coreógrafos portugueses e estrangeiros.

“Paraíso-coleção privada” (2012-13), “(M)imosa” (2011), com Trajal Harell, François Chaignaud e Cecilia Bengolea, “A Seriedade do Animal” (2009-10), “Uns e Outros” (2008), “A Improbabilidade da Certeza” (2006), “Larvar” (2006) e “Primeira Impressão” (2005) são algumas das outras obras que criou.

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