Há mais de 20 anos a ministrar aulas sobre a língua cabo-verdiana no país e na diáspora, Adelaide Monteiro disse, em declarações à Inforpress, que muitas vezes teve dificuldades com materiais para ministrar essas aulas.

Foi com o propósito de ter um instrumento orientador que a linguista e técnica do Instituto do Património Cultural resolveu escrever este livro de bolso, que deverá servir todos os falantes do crioulo que almejam conhecer mais sobre a gramática da sua língua e que dá à estampa no Dia Internacional da Língua Materna.

Conforme disse, desde 2009 vem trabalhando neste livro, que está dividido em duas partes, sendo a primeira versa a “Escrita da língua cabo-verdiana as letras, o nome e o som” e a segunda “O funcionamento da língua cabo-verdiana” constituído por dez pontos relacionados com os aspetos gramaticais da língua cabo-verdiana.

“A língua tem duas vertentes – a oralidade e a escrita -, tem a leitura e a compreensão, e para isso é preciso que tenhamos alguns instrumentos para ler e escrever e um desses instrumentos seria uma gramática”, disse, ajuntando que já existe uma gramática do crioulo no mercado, mas mesmo assim produziu este pequeno livro de bolso para levar os cabo-verdianos a usarem ainda mais e a refletirem sobre a gramática do crioulo.

“Já que ela não é ensinada na escola e muita gente nunca sequer se questionou onde está o sujeito e o verbo na frase, por isso, penso que esses dez pontos é um desafio a uma auto reflexão. A minha ideia é disseminar a escrita do crioulo de uma forma sistemática”, acrescentou.

Cabo Verde, afirmou, ainda não tem uma variedade padrão e para escrever esta obra recorreu ao Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-verdiano (ALUPEC) e seguiu um pouco das variedades usadas no Barlavento e Sota-vento.

Nesta obra, informou, há exemplos de como é que as pessoas podem escrever uma palavra nas diferentes variedades ou diferentes falares.

“Quem realmente quer escrever em crioulo e quer dar um contributo para o desenvolvimento desta língua tem aí um instrumento que é oficial e que é comum” disse, avançado que ainda tem mais dois livros sobre este assunto que será lançado posteriormente.

Ainda neste livro, o autor quis despertar a atenção das pessoas usando um pouco da língua gestual, uma vez que, segundo disse, ela também é a língua materna de muitos cabo-verdianos que fazem parte da comunidade surda.

Questionada sobre a classificação da língua cabo-verdiana como património imaterial nacional, Adelaide Monteiro disse ser a favor de tudo que valoriza a língua crioula e que qualquer medida positiva é bem vista.

“Se não tomamos medidas nacionais para a valorização da língua, tendo em conta o alcance que o crioulo está a ter enquanto objeto científico de estudo nas universidades estrangeiras, corremos o risco de ela ser valorizada primeiro lá fora antes de chegarmos aqui, portanto o Governo tem sempre o meu apoio nesse sentido”, advogou.

Este livro de bolso, que será lançado na Biblioteca Nacional, na Cidade da Praia, no âmbito das celebrações do Dia Internacional da língua Materna, celebrada a 21, será apresentado por António Correia e Silva e Filomena Delgado.