Formada em Engenharia e Gestão do Ambiente nos Açores (Portugal), foi na Holanda, país que acolhe milhares de descendentes de cabo-verdianos, que Glória Sofia Monteiro, hoje com 34 anos, teve oportunidade de se dedicar às letras. “A Holanda sempre foi um sonho para mim”, revela.

À conquista desse sonho, em 2012, a jovem emigrou para o que diz ser “um país de oportunidades”. “Perguntaram-me o que eu queria fazer e foi assim que ganhei coragem para escrever e expôr ao mundo tinha dentro de mim”.

Atualmente, mãe de duas crianças, Glória Monteiro compara o seu primeiro livro, Poesia das Lágrimas, a um primeiro filho. “Tinha muito receio (sobre o que escrevi), mas o livro foi muito bem-aceite”. A obra escrita em português foi lançada um ano após a sua ida para a Holanda e apresentada em algumas cidades europeias, como Lisboa, Luxemburgo e Roterdão.

Ganhou o gosto e como tinha algum tempo para escrever, enquanto os filhos estavam na creche, elaborar o segundo livro de poemas foi mais fácil. A obra “Laços de Poesia” foi dada à estampa em 2014 e acabou por ser traduzida para três línguas: italiano, francês e espanhol. A oportunidade surgiu na sequência da apresentação da obra em feiras do livro em Itália.

Depois de algumas participações em antologias, Glória Sofia acabou por se aventurar noutra área – a literatura infantil. “Nunca pensei escrever um livro infantil, mas enquanto mãe precisei explicar ao meu filho que toda a ação tem a sua consequência”.

O livro “Abriel”, dedicado ao filho Gabriel, foi publicado em 2018 e, até agora, foi apenas apresentado junto da diáspora cabo-verdiana nos EUA.

Paralelamente, já está no forno uma segunda obra, dentro deste segmento, o livro terá o título “Abi” e vai falar sobre a separação dos pais. “Espero que seja apresentado ainda este ano”.

“Existe um certo ‘pé atrás’ com os poetas mais jovens”

Com algumas obras no mercado, surge a inevitável pergunta sobre o porquê dos livros nunca terem sido apresentados no seu país natal. Gloria responde que “nunca surgiu a oportunidade”, mas adianta que sente que “existe um certo pé atrás” com os poetas e artistas mais jovens. Facto que diz estranhar já que os jovens escritores são “a voz do mundo”.

Lamenta ainda o facto das obras de jovens escritores cabo-verdianos terem muitas vezes maior aceitação fora do que no país. “Estou lá fora a representar Cabo Verde”, enfatiza a poetisa que gostaria de ser uma inspiração para outras pessoas que tiveram uma infância difícil à semelhança do que foi a sua.

De regresso ao país por motivos profissionais, de momento está dedicada à sua área de formação, a Engenharia, e pretende desenvolver projetos neste âmbito em Cabo Verde, Glória Monteiro apela aos jovens cabo-verdianos para que não abandonem os seus sonhos e não desistam de escrever. “Vale sempre a pena”.

Questionada sobre os hábitos de leitura dos jovens cabo-verdianos, Glória diz acreditar que a condição económica influência bastante esse aspeto e dá o exemplo de um jovem que tem de trabalhar e ajudar nas tarefas domésticas após as aulas, fica com pouco tempo para a leitura, por exemplo.

Durante a sua visita ao país, não perdeu a oportunidade de visitar bairro que a viu crescer, Safende, e lamentou o facto de a realidade do bairro ser ainda muito semelhante a que deixou em 2004.

“Nada mudou. Fui a Safende vi as mesmas coisas: as mesmas crianças na rua, a mesma violência doméstica, enfim.” Glória Sofia diz que é preciso mudar as consciências para inverter este círculo vicioso.

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