No ano em que se celebra o centenário do nascimento de Ruben A., a Assírio & Alvim lança uma nova edição de “O Mundo à Minha Procura”, que reúne num só volume os três livros que constituem a autobiografia do autor.

Passando pela infância, o primeiro amor, os estudos em Coimbra, amizades, livros e viagens, esta obra foi descrita pelo próprio Ruben A., numa entrevista ao Diário Popular, em julho de 1965: “Uma necessidade urgente de arrumar a minha vida sentimental, de ver a novela que dentro do meu ser transporto. A forma autobiográfica é a mais pura do romance, a criação permanente de um estado de espírito que traz presentes os fantasmas que se acolheram no sótão da sensibilidade”.

No prefácio da obra, Marcelo Rebelo de Sousa - as celebrações dos 100 Anos de Ruben A. contam com o Alto Patrocínio da Presidência da República – começa por questionar se terá vivido Ruben A. no país errado ou se terá vivido fora do seu tempo, para depois afirmar que “a resposta mais ajustada” talvez seja sim às duas questões.

“Sim, Ruben A. viveu no país errado e viveu fora do seu tempo. Porque viveu num Portugal que, em muito, não compreendia aquele homem, aquele homem culto, aquele homem radicalmente independente, aquele homem teimosamente distante dos grupos, das capelas, das correntes, dos alinhamentos, dos rótulos, aquele escritor que, ao escrever acerca de si, escrevia acerca dos outros, ao contar o seu mundo, descrevia o Portugal da sua época, o tal que o não entendia, e, portanto, preferia ignorá-lo, fazer de conta que não existia”, porque era “o mais cómodo”, escreve Marcelo Rebelo de Sousa.

No entanto, destaca o Presidente da República, Ruben A. era “fascinante” no que sabia e na forma como elaborava, como expunha e como enleava os outros cativando-os, sobre os mais diversos temas, da História de Portugal à pintura, clássica ou moderna, passando pela literatura e pela música.

“Era culto, ponto final parágrafo”, frisa, acrescentando que era, amiúde, “brilhantemente culto”, o que testemunhou por diversas vezes no Conselho Editorial do Expresso, mas também em conversas e encontros de amigos, ao examinar um quadro, avaliar um livro ou comentar uma interpretação musical.

Marcelo Rebelo de Sousa dá conta também da sua simplicidade, que presenciou, por exemplo, num episódio em que, sem nunca ter sido arregimentado no partido, Ruben A. sugeriu a Francisco Pinto Balsemão o nome de Partido Popular Democrático.

Outra das facetas deste romancista, historiador e crítico literário, destacadas pelo Presidente da República, diz respeito à forma como “era radicalmente independente e gostava de argumentar, de divergir, de criar e recriar, de fazer de iconoclasta, de chocar os espíritos arrumados, bem-comportados, avessos a solavancos maiores”, o que testemunhou em diversas situações e conjunturas sociais e políticas.

“No entanto, Ruben A. era tão naturalmente antes do seu tempo, ou melhor, fora daquele tempo, que deveria ter merecido, não apenas por alguns instantes, mas sempre e para sempre, um lugar indiscutível nos recenseamentos dos visionários, dos que se desprendem do imediato, dos que pensam e escrevem tão diferentemente que planam acima ou, pelo menos, ao lado das categorias com que se catalogava e cataloga épocas e escritores da nossa urbe”, considera o Presidente da República e professor catedrático.

Por isso, Marcelo Rebelo de Sousa aponta o dedo ao presente com os olhos postos no passado para afirmar que agora, volvidas tantas décadas, recordar Ruben A. – o “pesquisador reflexivo, debatedor enciclopédico, pensador desalinhado, escritor quase solitário no seu escrever” - é sublinhar um génio, frequentemente menosprezado ou omitido, e indagar que sociedade e que Portugal eram aqueles “que não viram, não quiseram ver Ruben A. como ele deveria ter sido visto”.

“E esta última questão é importante – acrescenta -, até para que se não repita, sistematicamente, no presente e para o futuro, para que se não faça de conta que o muito diferente não existe, não pode existir, que os catálogos, podendo ajudar a arrumar pessoas, criadores, pensadores, devem servir para negar a evidência do muito diverso, do muito heterodoxo, do muito atípico”, porque “atípicos somos todos”.

No âmbito do centenário do escritor, a Assírio & Alvim reedita também hoje “Silêncio para 4”, um diálogo-monólogo de duzentas páginas, no qual se caracteriza um amor de desencontros e ausências.

Nascido a 26 de maio de 1920, em Lisboa, Ruben Alfredo Andresen Leitão, de pseudónimo Ruben A., primo da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Universidade de Coimbra, e deu aulas de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Londres, entre 1947 e 1952.

Estreou-se em 1949 com “Páginas”, misto de diário e ficção, um texto que sairia ao longo dos anos seguintes, em seis volumes.

Destacam-se ainda os romances “Caranguejo” (1954), narrativamente escrito de trás para a frente, sem numeração de página, e “A Torre da Barbela” (1964), onde o autor funde a ficção biográfica e a ficção histórica.

A segunda metade da década de 1960 foi marcada pela publicação dos três volumes autobiográficos “O Mundo à Minha Procura”.

A sua escrita distingue-se pelo recurso a inteligentes jogos de linguagem, desconstrução dos eixos narrativos tradicionais, subversão cronológica dos eventos passados e pela crítica irónica a uma certa forma de ser português.

Alguns meses antes da sua morte, foi convidado a dar aulas na Universidade de Oxford.

Morreu em Londres, a 26 de setembro de 1975, aos 55 anos, vítima de ataque cardíaco.

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