O escritor Paulo José Miranda espera que a biografia que escreveu sobre Manoel de Oliveira, "A Morte Não É Prioritária", leve os leitores a interessarem-se pelos filmes do cineasta português, disse o autor à agência Lusa.

A editar este mês, é o segundo volume de um projeto editorial da Contraponto, de biografias sobre "grandes figuras da cultura portuguesa", escritas por autores maioritariamente ficcionistas.

A coleção foi inaugurada este ano com uma biografia de Isabel Rio Novo sobre Agustina Bessa-Luís e prossegue agora com "A Morte Não É Prioritária", quase 600 páginas sobre o percurso de vida e de trabalho - intimamente ligados - de Manoel de Oliveira, que morreu em 2015, aos 106 anos.

Paulo José Miranda dedicou dois anos de trabalho - "completamente envolvido, diariamente, continuamente" - a esta biografia, cruzando todos os filmes do cineasta, fontes documentais, testemunhos de quem conheceu e trabalhou com Manoel de Oliveira, acrescentando informações recolhidas de um dos filhos do realizador, o único que aceitou colaborar de forma aprofundada.

À agência Lusa, Paulo José Miranda explicou que uma das razões que o levou a aceitar a encomenda foi "o apreço enorme" que tem pela obra de Manoel de Oliveira: "No meu caso, que não sou um biógrafo, só podia fazer isto por uma grande paixão. E essa paixão é claro que passa para o texto. Isso não quer dizer que o texto seja completamente laudatório".

Na biografia, mais do que enumerar factos biográficos, Paulo José Miranda debruça-se demoradamente sobre a produção de muitos dos filmes de Manoel de Oliveira, para desvendar o pensamento cinematográfico do cineasta, a relação com as atrizes, a "obsessão do controlo absoluto no tempo de filmagem", as contrariedades durante o Estado Novo.

"A par da sua condição de cineasta ele teve uma vida riquíssima e muito variada e é sobre isso que falo. (...) Está muito visível na biografia a capacidade, quase um talento, que ele tinha para a própria vida. Que foi de algum modo generosa e que ele soube bem interpretá-la", disse.

Paulo José Miranda deixou de fora "questões pessoais, de foro íntimo" por serem muito subjetivas, mas não excluiu as histórias de tensões e desentendimentos com a escritora Agustina Bessa-Luís e as atrizes Leonor Silveira e Catherine Deneuve, e as frustrações com muitos projetos que ficaram por filmar.

O escritor adiantou que esta biografia contém alguma informação inédita ou clarificada, nomeadamente sobre os factos que levaram à detenção de Manoel de Oliveira pela PIDE, em 1963, por seis dias.

Manoel de Oliveira, então com 55 anos, julgava que tinha sido preso por ter participado num debate sobre "Acto da Primavera", mas segundo os documentos depositados na Torre do Tombo, facultados ao escritor, a PIDE julgava que o cineasta era um "empresário com alegadas ligações a uma organização subversiva".

"Apesar de ter sido preso por falsas razões, o medo que sentiram - ele e a família -, a incerteza acerca do futuro e o tempo passado no Aljube - que o iria marcar profundamente - foram verdadeiros", escreveu Paulo José Miranda.

A biografia revela ainda, segundo o escritor, o que terá levado ao fim da longa relação de trabalho - mais de duas décadas e vinte filmes - entre o produtor Paulo Branco e o realizador.

Na origem da rutura - nunca explicada publicamente por ambos - encontra-se um episódio passado durante um jantar na residência oficial do então primeiro-ministro, Durão Barroso, por ocasião da estreia de "O Princípio da Incerteza", envolvendo um brinde com Catherine Deneuve e uma longa conversa posterior entre produtor e realizador.

"Acredito que a nossa separação tenha contribuído para uma nova vitalidade do Manoel, ele deve ter sentido vontade de provar que não precisava de mim para nada", afirma Paulo Branco, citado nesta biografia, mantendo a mesma admiração pelo "genial" cineasta.

Depois desta rutura, Manoel de Oliveira ainda fez mais de uma dezena de filmes, sempre contornando a idade e a ideia de proximidade da morte.

Mais do que episódios como aquele, a biografia pretende que os leitores portugueses se aproximem da obra de Manoel de Oliveira, disse Paulo José Miranda.

"Fizesse com que as pessoas olhassem a obra de modo diferente, porque a maioria das pessoas refere-se aos filmes de Manoel de Oliveira sem ter realmente visto a obra", sublinhou.

O livro "A Morte Não É Prioritária - Biografia de Manoel de Oliveira" será apresentado no domingo, no Porto de Encontro, no Porto, e, na segunda-feira, na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por Gonçalo M. Tavares e Paulo Branco.

Segundo o editor Rui Couceiro, a publicação da coleção prosseguirá em 2020 com a edição das biografias sobre o escritor José Cardoso Pires, por Bruno Vieira do Amaral, sobre a fadista Amália Rodrigues, por Filipa Melo, e "provavelmente" sobre o poeta Herberto Helder, por João Pedro George.

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