Sob aplausos dos apoiantes e críticas de alguns adversários, o grupo mais antigo do Carnaval da Praia Vindos d’África sagrou-se pentacampeão. A atribuição de prémios aos cinco concorrentes oficiais teve lugar no final de quarta-feira, dia 6, na Praça Alexandre Albuquerque.
Passava da 18h40 da tarde, quando começou a cerimónia de consagração dos vencedores da edição de 2019 do Carnaval da cidade da Praia. Cinco grupos oficiais, um número que o vereador responsável pelo pelouro da cultura, António Lopes da Silva, já referiu que poderá vir a diminuir, disputavam os vários prémios.
A distribuição de prémios individuais começou por ser pacífica entre os presentes. O grupo Samba Jó levou para a casa o prémio de Melhor Música com o tema "“Ora doci ora margos” que retrata a cultura brasileira. A letra é da autoria do presidente do grupo e a melodia é do cantor mindelense Constantino Cardoso.
Seguiu-se o prémio de Melhor Carro Alegórico que foi para o grupo Maravilhas do Infinito.
Vindos d'África levou para casa os prémios de Mestre Sala, Porta-Bandeira, pela quarta vez consecutiva, e ainda de Rainha de bateria.
Entretanto, o grupo Bloco Afro Abel Djassi que já tinha arrecadado o prémio de Melhor Bateria conseguiu ainda os prémios de Rainha e Rei do Carnaval 2019. Esta última distinção que não caiu do agrado de alguns dos presentes que teceram várias críticas ao júri.
Ao nível de classificação geral, o grupo Samba Jó ficou em terceiro lugar, pelo segundo ano consecutivo. O grupo Maravilhas do Infinito, que no ano passado tinha desfilado como grupo de animação, demonstrou estar muito feliz com o segundo lugar do pódio.
Vindos d’África conquista penta com “muita resistência, boa vontade e trabalho”
O grupo do Bairro Craveiro Lopes, Vindos d’África sagrou-se pentacampeão do Carnaval praiense, facto que foi contestado principalmente pelo grupo Samba Jó.
Desde 1980 que há uma “tentativa enorme de liquidar o Carnaval da Praia"
Para o presidente da agremiação, José Gomes, mais conhecido por Bréu, a quinta conquista do primeiro lugar deve-se a “muita resistência, boa vontade e trabalho”.
O responsável do grupo defende ainda que desde a década de 1980 que há uma “tentativa enorme de liquidar o Carnaval da Praia” e que só com persistência os grupos têm continuado a apostar neste evento, como é o caso do Vindos d’África que foi fundado em 1986.
Sem comentar muito a atribuição dos prémios, Bréu que desmentiu que o grupo soubesse em antemão os resultados da premiação, acredita que é normal haver contestação quando não se atinge o que se quer. “Hoje eles estão tristes, mas amanhã estaremos todos juntos a brincar o carnaval da Praia”.
Samba Jó pode não desfilar no próximo ano
Em representação do grupo do bairro do Palmarejo, Samba Jó, Danilce Barros mostrou-se bastante insatisfeita com a atribuição do terceiro lugar e questiona como é que o grupo Vindos d’África sabia em antemão os prémios que iam ganhar. “Às 16h00, o responsável do grupo (Vindos d’África) estava na Praça a dizer os prémios que ia vencer e de facto eles acabaram por receber. Como é que eles poderiam saber?”, questiona.
O grupo acredita que merecia receber os prémios de Rei e Rainha do Carnaval e ainda Rainha de Bateria. “O melhor grupo que desfilou na Avenida fomos nós. O presidente do grupo já disse que não vamos desfilar mais. Há quatro anos que acontece o mesmo. Nós não vamos desfilar mais”, reiterou.
Rei e Rainha da polémica
Apesar de se mostrar feliz com a classificação, pelo facto do Maravilhas do Infinito ter ficado em segundo lugar na sua primeira edição como grupo oficial, o responsável do grupo Anilton Borges, mais conhecido por Anita, lamentou a atribuição dos prémios de Mestre Sala e ainda Rei e Rainha do Carnaval.
“Os prémios de Rei e Rainha podiam ter ido para qualquer grupo, agora para o (Bloco) Afro Abel Djassi, não. Eles não mereciam pelo atraso que tiveram e, ainda por cima, quando o grupo passou, o júri nem estava lá. Gostaríamos de saber que critérios foram usados”, questiona.
Outro aspeto que deixou o grupo insatisfeito foi o facto do prémio ter sido entregue ao também presidente do Bloco Afro Abel Djassi, Gamal, que no entender do Maravilhas do Infinito não poderia acumular a função de presidente e desfilar como Rei.
Consequentemente, o grupo pede a revisão de critérios e do corpo de jurados que apesar de salientar que teria feito um bom trabalho anteriormente, desta vez falhou.
“Justiça foi reposta”
O responsável pelo Bloco Afro Abel Djassi, Gamal Monteiro, defende-se das críticas e salienta que tanto os prémios de Melhor Bateria como de Rei e Rainha do Carnaval foram merecidos.
“A nível da bateria a justiça foi reposta, porque desde sempre se sabe que a nossa bateria é a melhor da Praia. Somos altamente organizados, temos muitas crianças a tocar porque temos uma escola a funcionar mesmo fora da época do
Carnaval e tocamos 18 ritmos diferentes na Avenida (Cidade Lisboa). Somos a primeira batucada que resolveu valorizar a fundo os ritmos nacionais”.
"Somos a primeira batucada que resolveu valorizar a fundo os ritmos nacionais"
O presidente do bloco afirma ainda que por ter estudado ritmos brasileiros no Brasil, quis estudar também os ritmos locais para depois os transpor para a batucada, sem ser uma “cópia do samba” e salienta que nada têm contra o samba, antes pelo contrário.
Com os trajes feitos de macramê em corda de sisal, elaborados pela Rainha de bateria do grupo, o Rei e Rainha do Bloco Afro Abel Djassi se distinguiram dos restantes quatro grupos. “São trajes nunca antes vistos na televisão”.
Quanto às críticas sobre ser presidente e ter sido Rei, Gamal contrapõe que nada existe no regulamento que o impede de fazer isso e ainda acrescenta: “Eles (os restantes grupos) não conseguem fazer várias ao mesmo tempo. Eu consigo. Daí eles dizem que é proibido, mas não é”.
O presidente do grupo acusa inclusive os críticos de arrogância e continua a argumentação sob o argumento de que o Carnaval não é mais do que uma apresentação de conceitos: “O nosso conceito de Rei é diferente. Eles têm um conceito de monarca europeu que fica sentado no palácio, nós não. Trouxemos um rei tradicional africano que dirige a comunidade, que tem carisma, um rei real”.
Carnaval de 2020 pode ter apenas quatro grupos oficiais
Para o vereador António Lopes da Silva, é visível a evolução do Carnaval da Praia com cada dia “melhores grupos, com maior competição, melhor performance e música”. Entretanto, o representante da CMP salienta que “há grupos na linha da frente e outros que precisam de melhorar”.
"Para o ano, temos de ver a questão do número de grupos"
Quanto à contestação dos prémios, o vereador salienta que é normal já que todos querem vencer e explica que a avaliação é feita pelo júri e que a lista dos 27 jurados foi apresentada aos grupos e que estes aprovaram a mesma.
“O Carnaval vai para frente quando as pessoas não ficam contentes para que no ano seguinte façam melhor”, considera e lamenta que os grupos deixem para trabalhar muito em cima da época de Carnaval e fala da necessidade de uma cultura institucional mais forte, que apesar de existir em alguns grupos, noutros ainda é bastante fraca com “grupos centrados em 3, 4 pessoas”.
“Para o ano, temos de ver a questão do número de grupos. Penso que quatro grupos (oficiais) seja o suficiente para representar a Praia”, afirma António Lopes da Silva. Por outro lado, a edilidade acredita que “é necessário que a Liga do Carnaval comece a funcionar”.
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