Os tempos são outros, e, na Ribeira Bote, este domingo, no dia do sétimo desfile do ano, o último pelas zonas do Mindelo, antes do enterro, no domingo, a seguir ao dia de Carnaval, a Inforpress constatou que o desfile de mandingas toca a todos, miúdos e graúdos.

Já vêm de casa com a indumentária da ocasião, sempre acompanhadas pelos pais, e as mais crescidas, até, têm lugar na dianteira do desfile.

É vê-las a imitar os mandingas mais famosos, como o Djaló, aliás, o mais solicitado para todo o tipo de fotografias. Têm o passo, a cadência e a vibração de pequenos mandingas.

São agora 14:00: na rua onde se situa o estaleiro dos mandingas da Ribeira Bote, na ilha de Madeira, há música ambiente da época, alguns curiosos.

Chama a atenção do repórter, a uma hora do início do desfile, fotografias fixadas em paredes exteriores de algumas casas. Claro está, são fotos dos mandingas, 20, oferecidos pelo fotógrafo Zé Pereira, qual exposição ao ar livre.

“Este é um pequeno gesto que faço aos mandingas pelo muito que dão à ilha de São Vicente”, lança o fotógrafo Zé Pereira, à Inforpress, no local, de máquina em punho, suor a escorrer pela face, porque o dia é de sol escaldante, sempre a procura do melhor ângulo.

“Sabe, acompanhar e fotografar os mandingas é uma sensação indescritível”, concretiza, ao mesmo tempo que elogia a forma como foi acolhido pelos mandingas.

São telas em lona A4, mas Zé Pereira faz questão de deixar registado que ofereceu um quadro à cozinheira Bia, dos mandingas, a senhora que trata do estômago daqueles que arrastam atrás de si, aos domingos, milhares de pessoas pelas ruas do Mindelo.

A hora do arranque do desfile aproxima-se, homens e mulheres munidos de crachá têm acesso a um quintal que funciona como estaleiro. Há estrangeiros com máquinas de fotografia e de filmar, que não perdem pitada dos arranjos que antecedem o desfile.

Os que vão desfilar chegam quase todos de mochila às costas, outros já de tronco nu besuntados de óleo alimentar e, pacientemente, “transformam-se” rapidamente em mandingas dos pés à cabeça, com ajuda de um “pó negro que vem do Brasil”.

São coroas de penas, colares de conchas e ossos velhos ao pescoço, pulseiras, pintura preta em todo o corpo, alguns com riscas brancas no rosto e no peito. Trazem espadas e lanças de madeira.

Lá fora, a batucada dá o sinal de que a hora do arranque está próxima, pois há um horário a cumprir.

Toca a entrar “na corda”, uma espécie de proteção, qual caixa invisível, reservada apenas a músicos e mandingas.

O resto, milhares, fora da corda, à frente, atrás e pelos lados.

Bandeiras há duas, a da República e uma outra negra, que traz a inscrição, a branco, “100% Mandingas da Ribeira Bote”.

A medida que o cortejo avança há mais gente que adere ao desfile, e não passa despercebido o considerável número de pessoas que trazem vasilhames de todo o tipo – até biberão! – com bebidas de todas as cores, entre sumos e (…) outras. Com certeza.

Foi assim durante todo o percurso de hoje, Ribeira Bote/Alto Sentina/Alto Mira Mar/Avenida Humberto Leite/Laginha/Avenida Marginal/Rua de Lisboa/Ribeira Bote, com agentes da Polícia Nacional sempre atentos, mas de forma discreta e pedagógica, a acompanhar.

Poucos minutos antes das 18:00, eis que o cortejo está de regresso ao ponto de partida e Nilton, presidente do grupo Mandingas da Ribeira Bote, que gosta de ser tratado como Tau, está radiante porque, ao sétimo desfile do ano, “tudo correu lindamente”.

“A cada desfile há mais gente, mandinga de Ribeira Bote consegue arrastar milhares de pessoas, este é fenómeno que aumenta a cada dia”, lança ao repórter, ao mesmo tempo que reforça que a parceria com a Polícia Nacional ajuda “e muito” para que não haja “qualquer problema” de desordem pública.

Reconhece que este ano receberam “bons apoios” da câmara e de algumas empresas, cujos nomes não divulga, no entanto, para evitar deixar alguma de fora.

“É que, sabe, se não os mencionar a todos, para o ano poderão dizer que não apoiam porque não falamos delas”, lança, com ironia.

Em São Vicente, é voz corrente que a manifestação semanal dos mandingas, que anunciam e “enterram” o Carnaval, já faz parte da cultura da ilha e um produto turístico que Cabo Verde pode “muito bem vender ao exterior”.

Tau concorda, ele que faz parte do grupo de pessoas que se dedicam a manter viva uma tradição, de forma voluntária, tudo para não deixar morrer esta manifestação “impregnada” na cultura da ilha de São Vicente, há várias gerações.

Quem ainda não assistiu aos desfiles dos mandingas tem mais uma oportunidade, domingo que vem, com uma animação apenas na baixa da cidade do Mindelo, sem contar com o enterro do Carnaval, no domingo a seguir à terça-feira do Entrudo.

E porque a criatividade dos mindelense vem sempre à tona, depois de enterro haverá ainda a missa do 7º dia, em honra ao Carnaval, aberta a quem quiser participar, na ilha de Madeira.

A manifestação Mandinga, no Carnaval do Mindelo, apontam fontes consultadas pela Inforpress, terá surgido no contexto histórico dos anos 40, marcados pela fome, emigração forçada  e pelas revoluções contra o regime colonial português.

O seu fundador, de acordo com alguns estudiosos, é um estivador “muito ativo”  do Porto Grande do Mindelo,  conhecido como Capote, uma figura popular que  frequentava o Cais da Alfândega, Praia de Bote, Bar Boca de Tubarão e a Ribeira Bote.

Capote foi um entusiasta de todas as festas populares, e destacou-se no Carnaval pela sua criatividade na criação da personagem Rei de Mandinga de São Vicente.

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