Diz que desde que nasceu sempre teve os holofotes apontados para si por ser neta de Cesária Évora. Janete Évora tem 26 anos e é formada em Nutrição no Rio de Janeiro, Brasil. Regressou para São Vicente e hoje divide o seu tempo entre a nutrição e a gestão do Núcleo Museológico Cesária Évora.

“É sem dúvida uma grande responsabilidade ser neta da Cesária Évora. Mais ainda no meu caso em que assumi a missão de partilhar e recontar a sua história. No Núcleo trabalho nesse sentido. Neste momento passámos para a gestão do Instituto do Património Cultural (IPC) e o objetivo é o de preservar todas as memórias da minha avó”, conta.

Lembra que nem sempre foi fácil, numa ilha pequena, ser reconhecida e conotada a uma figura tão importante para Cabo Verde. “Toda a gente já me identificava como sendo neta da Cesária Évora. Brinco que quando cheguei à adolescência não podia fazer sequer nenhuma traquinice porque já sabiam quem eu era. Fui crescendo e comecei a lidar melhor com tudo isso e hoje tenho orgulho em ser neta da Cesária”, diz com satisfação.

Explica que, o ano em que nasceu, foi também o ano de “explosão” da carreira de Cesária Évora mas que nem as temporadas que a avó passava fora de Cabo Verde as afastou. “Convivi muito com a minha avó. Ela era, aliás, como a minha mãe. Ela sempre dizia que ela era o pilar da minha educação. Sou muito parecida com ela em tudo e estávamos sempre juntas. Ela dizia que eu era a 'menina dos seus olhos". Orgulhava-se de mim por eu ter terminado os meus estudos e ser responsável”.

A maneira de ser de Cesária, a sua simplicidade, generosidade e a forma tranquila de encarar a vida são algumas das principais características que Janete herdou da avó e que guarda até hoje.

Da avó, Janete só não herdou o dom de cantar. Pelo menos era o que dizia Cesária Évora. “Ela dizia que eu era terrível. Pedia-lhe, a brincar, 2 mil escudos para que eu cantasse e ela dizia que me dava 3 mil para que eu ficasse calada”, recorda divertida.

Em vez de cantar, Janete prefere dançar. “Ela cantava e eu dançava ao som das suas músicas”, complementa com saudade.

“Uma homenagem à sua altura”

Para Janete, a escolha de Cesária Évora para o enredo de 2018 da Escola de Samba Tropical (EST) foi uma “homenagem à sua altura”. “A EST, em termos culturais, já fez muito por São Vicente e é a maior escola de Carnaval e, por outro lado, a minha avó é o maior ícone internacional da cultura de Cabo Verde. Fiquei muito contente porque é a primeira vez que uma personalidade é escolhida para o tema enredo”.

Janete, que tem acompanhado de perto o desenrolar do enredo dentro da EST, garante que “está tudo a ficar muito bonito”.

A jovem nutricionista sempre desfilou no Carnaval de São Vicente em diversos grupos mas há 9 anos que não o fazia para que pudesse, de fora, apreciar os desfiles. “Nunca perdi o desfile de nenhum grupo e adoro. Mas quando desfilas não consegues ver nada”, explica.

Este ano, ainda antes de receber o convite da EST, já tinha prometido que regressaria ao sambódromo depois de um projeto pessoal de mudança onde conseguiu perder 24 quilos. “Já tinha dito que o meu presente seria desfilar este ano com pouca roupa. Com esse convite para ser porta-bandeira já não consigo ir com pouca roupa … pelo contrário, vou com o máximo possível”, conta em tom divertido.

Quando soube que seria esse o enredo escolhido pela Escola de Samba Tropical ficou “toda entusiasmada” e imaginou que seria uma figura de destaque no desfile mas nunca a porta-bandeira.

“Respeito a Escola de Samba Tropical e ganhei aquela cultura do Brasil onde carregar a bandeira é uma responsabilidade. A bandeira da escola é como se fosse um manto sagrado e é uma responsabilidade grande transportá-la mais ainda num grupo como o Samba Tropical”.

Diz que ser porta-bandeira traz alguns desafios como o preparo físico que exige e a luta contra o vento nas ruas de Mindelo. “Como porta-bandeira tens que estar sempre elegante, a sorrir, simpática e não sambar. Não pode haver movimentos bruscos, deve ser tudo sutil como uma bailarina”.

O não poder dar uns passos de samba é definitivamente uma das partes que mais custa à Janete. “Eu sou uma amante de funk ou de qualquer outro estilo do género. Gosto de dançar, ir ao até o chão, e não poder sambar é um desafio enorme. Mas tem sido um desafio muito agradável e acho que me tenho saído bem. Pelo menos é o que as pessoas me têm dito nos ensaios”,

A porta-bandeira sublinha que tem sido muito acarinhada e sobre o desfile tem uma certeza: será uma noite de muitas emoções. “No próprio dia, já com aquela roupa, com as surpresas que vão acontecer … eu sei que vou chorar. Eu vivo o Carnaval e, por exemplo, no ano passado quando a Fatinha do Rosário, a porta-bandeira antecessora na EST, entrou na avenida não consegui conter as lágrimas. Fico a imaginar agora que é a minha vez”.

A roupa que irá usar enquanto porta-bandeira terá um conceito por detrás que, à semelhança de todo o desfile em si, irá espelhar a história e a vivência de Cize. “Por agora posso dizer que o vestido vai conter mar, a saudade e o ouro que marcou a sua carreira. Não haverá ‘pés descalços’ já que uma porta-bandeira tem de ter aquela elegância de um pequeno salto. Vai ser tudo lindo com certeza”.

O seu traje está a ser confecionado por uma das costureiras mais antigas e requisitadas do carnaval mindelense, Milú Torres. “Ela está a fazer a roupa com muito carinho e eu prometi que vou preservar esse traje da mesma maneira que preservo todo o espólio da minha avó. Já me identifiquei com a D. Milú e já a vejo como uma nova avó que ganhei. Ela é uma grande artista”, frisa.

Explica que, pós Carnaval, vai aproveitar o seu traje para uma exposição temporária no Núcleo Museológico Cesária Évora. “Vai ser uma forma de chamar a atenção para o carnaval fora de época e principalmente proporcionar ao público a oportunidade de irem apreciar todo o trabalho envolvido na confeção do traje. Aquela roupa é tão cara que acho que vale a pena preservá-la para que um dia, quando tivermos o museu do carnaval de que falam, o vestido possa lá constar.”

O traje de Janete ronda o valor de 250 mil escudos, o que para a neta de Cize é um exagero. “Só estou a fazer tudo isto pela minha avó porque acho que ela merece. Sou como ela na maneira de ser. Somos simples, não somos de grandes luxúrias. Optei por usar o dinheiro que tinha posto de parte para usar num empreendimento pessoal para poder avançar com a roupa. Mas tudo que tenho devo a ela”.

Apesar de a roupa já estar pronta, Janete apela a quem quiser e puder ajudar que ainda o pode fazer de modo que ela possa reaver parte do valor investido. “Farei um relatório público para apresentar todas as contas, com o que recebi, de quem recebi (caso queiram deixar o nome). E caso o valor recebido ultrapasse o preço do traje, será revertido em ação social”, acentua.

Janete terá no desfile ao seu lado, como mestre-sala, Fredy Sousa, que reside no Luxemburgo. “A porta-bandeira e o mestre-sala enquanto casal devem ter muita cumplicidade”, sublinha. A jovem explica que assim que foram escolhidos para fazer par começaram, ainda que à distância, a conversar, a trocar mensagens e a falar sobre as roupas. “Têm sido muitos áudios trocados e mensagens. No dia em que o Fredy chegou a São Vicente fizemos questão de o ir buscar ao aeroporto e temo-nos entrosado superbem. Esperamos conseguir passar essa cumplicidade”.

Têm ensaiado todos os dias de forma a compensar o tempo perdido. “Estamos a tentar fazer tudo da forma mais natural possível, mais suave, para que seja tudo vindo do coração, da alma. Queremos muitos momentos de espontaneidade para que tudo flua”.

A Escola de Samba Tropical desfila na noite desta segunda-feira, 12, pelas 21 horas.

Janete Évora e Fredy Sousa
créditos: Cláudia Marques | SAPO

Espreite como foi o último ensaio do Samba Tropical neste Carnaval