Fátima (Fatinha) do Rosário tem 45 anos, é natural de São Vicente e é tradutora intérprete. “Quando terminei o ensino secundário, fui para a Rússia com uma bolsa de estudos. Era a época de transição do comunismo e o país não estava bem. Resolvi voltar para Cabo Verde e daqui fui para a Holanda”, conta.

A Holanda, onde fez os seus estudos, foi a sua casa durante 14 anos. Regressou à sua ilha natal com as filhas, em definitivo, em 2010.

O Carnaval fez, desde sempre, parte da sua vida. “Na minha casa sempre houve Carnaval. O meu pai adora e sempre desfilou. Eu saí no conhecido grupo da Gia, no Vindos do Oriente e em outros tantos”, recorda.

Durante os anos que viveu fora de Cabo Verde nunca deixou de brincar o Carnaval e ia sempre a festas do Rei Momo na Holanda. “Assim que regressei a São Vicente voltei a desfilar. Criei um grupo infantil, fazia alas no Samba Tropical e, em 2011, o Cruzeiros do Norte fez-me o convite para desfilar como figura de destaque. Desfilei com eles durante dois anos e quando dei por mim já estava envolvida no grupo dos pés à cabeça”, diz a sorrir.

Começou por apoiar o Cruzeiros do Norte no Carnaval de 2013 e no, ano seguinte, já fazia parte da direção do grupo. “Foi um período em que tivemos uma quebra, o grupo caiu muito e assim entrei na direção. Já lá vão cinco anos”.

Está desde 2014 como um dos principais rostos responsáveis do grupo mas sem nunca deixar de, em simultâneo, se divertir. Desfila na avenida todos os anos. “Desde o princípio sempre disse no grupo que desfilar faz parte da minha concretização e prazer pessoal. Passar a trabalhar para o Carnaval para um povo e deixar de ter a parte que mais gosto? Isso não, aliás, sempre disse ao Cruzeiros do Norte que não deixaria de desfilar inclusive com o Samba Tropical. E mesmo no dia dos desfiles oficiais nunca vou como direção … desfilo sempre”, frisa.

Pôr o grupo todos os anos no sambódromo é, diz Fatinha, “um grande desafio e um trabalho não remunerado”. Conseguir patrocínios e gerir foliões são os dois principais desafios, assegura.

“Principalmente essa parte de gerir foliões. Há pessoas que no mês de outubro já sabem o que vão vestir, mas a maioria espera até o último momento. Temos tentado sensibilizar as pessoas no sentido de ser organizarem, fazerem rifas, formarem alas, de modo a não ficar tudo para a última hora. Aquela correria é que acaba por ser cansativa. As idas às costureiras, organizar as pessoas, os contratempos nos estaleiros são partes que nos retiram muita energia”, desabafa.

Enquanto membro da direção do grupo de Cruz de João d’Évora, Fatinha do Rosário faz um pouco de tudo. “Encarrego-me de organizar, fazer o contacto com as empresas, mas às tantas também vou às lojas à procura de materiais, ajudo nos ensaios com a coreografia. A única parte que deixo de lado e com a qual não me envolvo é nos trabalhos de estaleiros”.

Enquanto membro da direção, Fatinha do Rosário, tem procurado fazer com que o Cruzeiros do Norte esteja representado em determinados momentos como inaugurações de hotéis, receções, entre outros. “Fazemos atividades de forma a angariarmos alguns fundos, mas também para promovermos o Carnaval de São Vicente. Já recebemos, por exemplo, o Presidente da República de Portugal, já estivemos numa atividade da FAO, Fórum do Turismo, conferências, e mais recentemente na inauguração do Hotel Hilton no Sal.”

Amor, energia e responsabilidade

Fatinha do Rosário tem desfilado sempre. Foi figura de destaque, já foi rainha e no ano passado teve a primeira experiência como porta-bandeira na Escola de Samba Tropical. “Foi bom, foi diferente. Uma porta-bandeira não pode sambar mas há os passos de dança, tem de interagir com o mestre-sala e com o público. Foi maravilhoso. Já vesti aquela roupa mais umas quatro ou cinco vezes”, brinca.

Este ano não será diferente e Fatinha voltará à avenida, quer no Samba Tropical quer na terça-feira no grupo Cruzeiros do Norte. Garante que é tudo uma questão de amor, energia - muita energia -, responsabilidade e ensaios.

“No Samba Tropical vou estar com uma grande amiga numa homenagem à Cesária (Évora). Vamos levar a sua história, os discos que lançou, etc. Vamos ser figuras de destaque. Na terça-feira, vou estar a encerrar uma ala. No ano passado, estava num andor mas este ano vou estar no chão. Não me faz diferença. Gosto de me enquadrar onde sinto que há falta de pessoas ou onde posso deixar falta”.

Apesar do stress e do cansaço, Fatinha garante que são muitas as coisas boas que o Carnaval também traz. “O Carnaval é uma teimosia. Ficamos cansados, mas não sei explicar… Gostamos muito do que fazemos, gostamos de ver aquele produto final. Sempre que chega ao fim um carnaval dizemos que não nos voltamos a nos envolver. Mas sem darmos por isso já estamos no ano seguinte, empenhados outra vez. Mas é isso, o carnaval, além do cansaço, traz-nos muita alegria e experiências. Sentimos que estamos a fazer um trabalho que as pessoas reconhecem … sinto que estou a dar um contributo em algo que gosto”, explica.

A dirigente do Cruzeiros do Norte esteve em novembro último no Brasil, com representantes de todos os grupos de carnaval de São Vicente. Diz que a experiência de intercâmbio foi “fantástica”.

“Há várias coisas que vimos e aprendemos que, inclusivamente, já começámos a pôr em prática, por exemplo, o lançamento da música do grupo para este ano. Todos os grupos de Mindelo sempre sonharam ter uma quadra e acredito que um dia, num futuro não muito longínquo, se concretizará. Gostávamos de ter o nosso espaço, fechado, onde pudéssemos fazer atividades durante todo o ano. Não é nada assim tão impossível”, almeja.

As experiências que trouxe na bagagem são muitas, mas Fatinha elege, com emoção, um momento alto dos dias que estiveram no Brasil. Para mim foi sem dúvida o ensaio que assistimos do grupo Beija-Flor. Ensaiámos com todas aquelas pessoas… só de lembrar arrepio-me. Quando cheguei à cidade do Samba ajoelhei-me e disse-lhes ‘um dia vou desfilar aqui’”, lembra.

“Estamos a trabalhar com o intuito de arrasarmos”

O grupo Cruzeiros do Norte vai desfilar este ano com o enredo "Vencer as misérias humanas é sobreviver".

“As pessoas têm dito que o nosso tema é um pouco complexo, mas espero que o consigam entender. Vamos falar de “Misérias humanas” e vamos mostrar como é que em Cabo Verde sobrevivemos a isso. Não estamos a falar apenas de miséria financeira mas também a espiritual”, esclarece.

Desigualdade social, o passado tenebroso do homem, a maneira como o homem sempre teve que subjugar o outro originando guerras, são algumas das deixas que o grupo irá seguir ao longo do desfile do enredo ao som de "Tud Manêra ê bá Devagar".

“É um tema recheado de muita crítica. Essa característica é típica do nosso carnavalesco, Fernando Morais (Nóia), que gosta de pôr o dedo na ferida”.

Mas também haverá, a fechar, espaço para o grupo homenagear a morna. “O que sempre nos manteve unidos e fortes é a nossa cultura. Aproveitamos assim para chamar a atenção para a candidatura da morna a património mundial”, explica.

Fatinha do Rosário recorda os três anos de glória do Cruzeiros do Norte em que foram campeões três vezes consecutivas. “Até o momento nenhum outro grupo conseguiu ultrapassar-nos nestes últimos anos. Foram tempos bons”.

Este ano o grupo vai lutar para destronar Vindos do Oriente e chegar ao primeiro lugar do pódio. Em 2017, Cruzeiros do Norte ficou em terceiro lugar.

Desfile Cruzeiros do Norte | 2017
créditos: Cláudia Marques