A luta pela definição da Netflix enquanto cinema ou televisão continua. Dias antes da conquista de três Óscares em 10 nomeações para “Roma”, filme produzido pela plataforma mas estreado nalgumas salas de cinema de todo o mundo por um período limitado, Steven Spielberg, numa entrevista à ITV News, veio não só defender a experiência de ver filmes em sala de cinema mas também que só os que são feitos de raiz para esse espaço deveriam competir nos prémios da especialidade como os Óscares.

“Não acredito que filmes que tenham apenas exibições específicas em alguns cinemas por menos de uma semana, se possam qualificar para nomeações aos Óscares”, sublinhou o realizador.

“Cada vez menos realizadores vão lutar para angariar dinheiro, ou para competir em Sundance ou possivelmente conseguir que uma distribuidora especializada lance os seus filmes em cinema. E cada vez mais irão deixar que os negócios de SVOD [Streaming Video On-Demand] lhes financie os filmes, talvez com a promessa de uma curta janela de uma semana em cinema para se qualificarem para prémios. Mas, na verdade, quando alguém se compromete com um formato de televisão, está a fazer um filme para televisão”. Nesse sentido, o conteúdo do serviço de “streaming”, defende, “merece um Emmy e não um Óscar”.

Em resposta, a Netflix acaba de deixar a seguinte mensagem no Twitter: “Nós adoramos o cinema. Aqui vão algumas coisas que também adoramos: acesso às pessoas que nem sempre podem custear, ou que vivem em cidades sem, cinema; que toda a gente em todo o lado possa usufruir dos lançamentos ao mesmo tempo; dar aos realizadores mais vias para partilhar a arte. Estas coisas não são mutuamente exclusivas”.

O tema deverá ser discutido nas reuniões de abril na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que deverão clarificar vários tópicos em relação à inclusão de filmes das plataformas, nomeadamente uma maior janela de exibição exclusiva em salas de cinema (“Roma” esteve em exibição três semanas nos EUA antes de entrar na plataforma) e a não divulgação dos dados de bilheteira.

Além de Alfonso Cuarón, que conquistou o Óscar de Melhor Realizador por “Roma”, realizadores tão prestigiados como os irmaos Coen, Paul Greengrass ou Ava DuVernay já tiveram projetos financiados pela Netflix, que tem na manga um dos filmes mais promissores de 2019: “The Irishman”, realizado por Martin Scorsese, com nada menos que Al Pacino, Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel.

Ainda assim, Spielberg, que se estreou profissionalmente em televisão, não deixou de defender o pequeno ecrã: “alguns dos melhores argumentos a serem escritos hoje em dia estão na televisão, alguma da melhor realização está na televisão, algumas das melhores interpretações estão hoje na televisão.

O som é melhor em casa do alguma vez foi, mas não há nada como ir a uma grande sala escura com pessoas que nunca antes vimos e sermos mergulhados na experiência.” O cineasta assinalou que “espero que todos nós continuemos a acreditar que a maior contribuição que podemos fazer enquanto cineastas é dar às audiencias a experiência de ver um filme numa sala de cinema”.

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