O conglomerado gigantesco que é hoje a Walt Disney Company foi fundado por dois homens em 1923, os irmãos
Walt e Roy Disney, respectivamente o tio e o pai de
Roy E. Disney, que faleceu ontem na California, aos 79 anos, vítima de cancro no estômago. Nos últimos vinte anos, liderou duas revoltas de accionistas na empresa, que tiveram como resultado o realinhamento das prioridades da mesma com os objectivos iniciais dos seus fundadores, e, como fruto disso, o imenso sucesso da mesma a todos os níveis.

Roy começou no negócio da família logo nos anos 50, nos departamentos de montagem, argumento e produção dos premiados documentários sobre a vida animal que o estúdio produziu nessa época. Disney sempre se manteve afastado das luzes da ribalta e nunca foi seriamente considerado como sucessor natural do negócio da família. Só que os investimentos sagazes que foi fazendo fora do estúdio permitiram-lhe ir acumulando acções no estúdio e, mais à frente, ter mesmo uma palavra importante a dizer no futuro da mesma. Na verdade, com a criação em 1978 da Shamrock Holdings, Roy foi-se tornando gradualmente um investidor de grande peso em propriedades na California e em Israel, com participação activa em várias empresas, sendo a Disney a mais relevante delas.

Mas a sua grande importância no que ao cinema concerne arranca em 1984, data em que, insatisfeito com um estúdio que fazia filmes que já ninguém queria ver, se demitiu do conselho de direcção e liderou uma revolta de investidores que, no final da contenda, colocou à fente do estúdio uma nova direcção, liderada por
Michael Eisner e
Jeffrey Katzenberg, que levaria a Disney a cumes criativos e financeiros excepcionais. Foi essa direcção que, 20 anos após o falecimento do fundador Walt Disney, transformou uma empresa criativamente moribunda no maior conglomerado de entretenimento do mundo.

De caminho, e sob a insistência directa de Roy E. Disney, o cinema de animação foi devolvido ao local primordial que antes detinha na produção do estúdio e, com sangue novo por trás dos novos projectos, renasceu das cinzas para maravilhar novas gerações e reconquistar as antigas. Foi o período em que surgiram
«A Pequena Sereia»,
«A Bela e o Monstro» ou
«O Rei Leão», sucessos gigantescos que deram cartas de nobreza ao desenho animado e que propulsionaram a idade de ouro da animação cinematográfica que ainda hoje vivemos. O próprio
John Lasseter, director da Pixar e actual responsável criativo da Disney, assumiu sem reservas que «Roy Disney é completamente responsável pelo renascimento da animação Disney, começando com «A Pequena Sereia» e prosseguindo com toda aquela série extraordinária de clássicos Disney».

Já nesta década, novamente insatisfeito pelo rumo da empresa, Roy E. Disney demitiu-se do conselho de administração e protagonizou uma luta muito mediatizada com a direcção do mesmo (sob o título «Save Disney»), com o objectivo de repôr na empresa a tónica na criatividade que era uma marca da acção dos seus fundadores. A entrada em cena de
Robert Iger na função de director máximo da companhia, com John Lasseter como responsável criativo pelos conteúdos, apaziguou as diferenças e realinhou a empresa com o caminho que Roy preconizava para o estúdio. O sucesso do mesmo nos últimos anos tem-lhe dado razão.

Além de ter produzido directamente filmes como
«Fantasia 2000» e a curta-metragem
«Destino», a partir de um projecto não concluído em que Walt Disney e Salvador Dali tinham trabalhado nos anos 40, Roy E. Disney tornou-se nos últimos anos um embaixador do estúdio, elo directo ao «ethos» de insistência na qualidade que distinguia os seus fundadores.

Ao longo dos anos, distinguiu-se também pela actividade filantrópica, contribuindo para várias instituições culturais, nomeadamente para o California Institute of the Arts, fundada pelo seu tio e o seu pai, e onde se formou toda a fornada de animadores e realizadores que, nos últimos 30 anos têm dado cartas na animações norte-americana, nomeadamente
John Lasseter,
Brad Bird e até
Tim Burton.

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