A mais grave crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, segundo as palavras da ONU, gerou nos últimos anos uma forte reação cultural, movimento que juntou criadores de todos os cantos do mundo e de várias áreas artísticas.

Da escrita à ilustração, passando pela música, cinema ou pelo teatro, são muitos os exemplos de como a indiferença não foi uma opção para o mundo da cultura perante uma realidade que é vivida atualmente por mais de 65 milhões de pessoas (deslocados e refugiados) e que é assinalada na quarta-feira por ocasião do Dia Mundial do Refugiado.

“A crise dos refugiados não é sobre refugiados. É sobre nós”. A afirmação foi feita pelo reconhecido artista chinês Ai Weiwei num artigo publicado em fevereiro passado no jornal britânico The Guardian, em que descreve a sua experiência pessoal enquanto refugiado na China em finais da década de 1950.

Em 2017, o também ativista Ai Weiwei mostrou ao mundo o documentário “Human Flow” (“Refugiados” no título em português e exibido em Portugal), uma “viagem” que durou dois anos de filmagens em 23 países e em 40 campos de refugiados, alguns erguidos há várias décadas e que atualmente abrigam três gerações de refugiados, segundo relatou o próprio.

Human Flow - Refugiados

“Eu sei o que é ser um refugiado e experimentar a desumanização que vem com o deslocamento de casa e do país. Há muitas fronteiras para desmantelar, mas as mais importantes são aquelas que estão dentro dos nossos próprios corações e mentes – são essas as fronteiras que estão a dividir a humanidade”, escreveu no mesmo artigo de opinião.

Um ano antes, em 2016, a edição 66.ª do Festival de Berlim atribuiu o Urso de Ouro a “Fuocoammare” (“Fogo no Mar” no título em português e também exibido em Portugal), um documentário de Gianfranco Rosi que traça um retrato da crise de refugiados na Europa a partir da ilha italiana de Lampedusa.

Nesse mesmo ano, e numa entrevista à Lusa, Rosi, italiano de origem eritreia, disse que, com o filme, pretendeu "sensibilizar para a inaceitabilidade de deixar as pessoas morrerem no meio do mar".

"O Mediterrâneo transformou-se num túmulo, num cemitério sem cruzes nem mármores", lamentou, na altura, comparando a "tragédia" dos migrantes com o Holocausto.

Fogo no Mar

São várias as obras relacionadas com a crise dos refugiados expostas nos escaparates das livrarias. Muitas delas analisam e relatam, na primeira pessoa ou através de olhos de terceiros, casos concretos dessa realidade de ser um refugiado e histórias de superação.

Tais obras têm vários públicos-alvo e o infantil não é exceção. É o caso de “A Viagem” da ilustradora Francesca Sanna, editado este mês em Portugal. Apoiado pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e pela Amnistia Internacional (AI), o livro conta, em ilustrações e texto, a história de uma mãe que parte numa viagem, marcada pela esperança mas também pela dor, com os dois filhos para fugir à guerra.

A história, narrada por uma criança e traduzida atualmente em 14 línguas, teve como ponto de partida duas jovens refugiadas que a autora conheceu em Itália. A partir daí, Francesca entrevistou várias famílias de refugiados na Europa.

Citado recentemente pela revista Visão e pelo jornal The Guardian, o livro do jornalista inglês Daniel Trilling “Lighs in The Distance - Exile and Refuge at the Borders of Europe” (ainda sem título em português) é um dos mais novos lançamentos sobre a temática dos refugiados.

Na obra, Trilling narra os cinco anos que passou a escrever sobre refugiados, os que morreram e os que sobreviveram. O jornalista, que se moveu por alguns países, falou com muitos refugiados e tenta transmitir o testemunho daqueles que sentem na pele a crise migratória. No livro, o autor também aborda as políticas contra a entrada de migrantes na Europa e o crescimento de uma vaga populista.

A partir desta terça-feira em Lisboa, e no âmbito de um ciclo dedicado às migrações promovido pelo Teatro Municipal Maria Matos, estará em cena “Sanctuary”, uma performance-instalação assinada pelo encenador sul-africano Brett Bailey que idealizou este espetáculo após ter visitado campos de refugiados por toda a Europa, ao longo de dois anos.

O espetador é convidado a percorrer uma prisão labiríntica onde são recriados episódios com refugiados e migrantes vindos de várias latitudes e a sensibilizar-se perante tal realidade.

A peça, montada no Estúdio 1 da Tobis (Lumiar) até 24 de junho, define-se como uma jornada virtual sobre uma União Europeia (UE) em crise, onde o racismo e a xenofobia aumentam, ao mesmo tempo que se expande a vigilância e os controlos nas fronteiras, segundo um texto de apresentação do espetáculo.

A área da música não é exceção quando se fala numa reação cultural à crise dos refugiados e no recente Festival Eurovisão da Canção, que se realizou este ano pela primeira vez em Portugal, o duo que representou França cantou “Mercy”, a história de uma bebé nigeriana refugiada que nasceu a bordo de um navio no Mediterrâneo, em 2017.

Mercy nasceu a 21 de março do ano passado a bordo do navio “Aquarius”, da organização não-governamental SOS Mediterranée, a mesma embarcação que no passado fim de semana levou até ao porto de Valência (Espanha) centenas de migrantes que foram rejeitados pelos governos de Itália e de Malta.

A criança nasceu apenas algumas horas depois do navio ter salvo a sua mãe e outros 944 refugiados que faziam a perigosa travessia entre o norte de África e a Europa. Numa entrevista à revista norte-americana Billboard em abril passado, a vocalista do duo francês, Émilie Satt, contou que conheceu a história de Mercy naquele mesmo dia de março através das redes sociais e que a necessidade de traduzir os sentimentos provocados por aquela situação numa música foi quase imediata.

Entre os muitos exemplos de como a arte respondeu à crise dos refugiados estão também as várias obras criadas pelo artista britânico Banksy.

Forte crítico da forma como a Europa tem lidado com os refugiados, o artista urbano condenou em 2016 num mural o uso de gás lacrimogéneo, por parte da polícia francesa, contra os refugiados acampados em Calais (norte de França), zona que ficou conhecida como a “selva”.

Inspirado então pelo musical “Os Miseráveis”, Banksy pintou em frente da Embaixada de França em Londres uma jovem de lágrimas nos olhos, enquanto uma lata de gás lacrimogéneo está caída por baixo de si.

Antes, o mesmo artista urbano já tinha utilizado a imagem de Steven Jobs, retratado com um saco de lixo preto ao ombro e um computador na outra mão, para lembrar ao mundo que o fundador da gigante tecnológica Apple era filho de um imigrante sírio.

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