"Dor e Glória", de Pedro Almodóvar, foi o grande vencedor dos Goya, popularmente conhecidos como os "Óscares do cinema espanhol", entregues pela Academia de Cinema de Espanha numa cerimónia no sábado à noite (25), pela primeira vez em Málaga.

O seu trabalho mais pessoal, de confissão íntima (baseia-se na infância e juventude) e profissional, recebeu sete prémios, para Melhor Filme, Realização, Ator (Antonio Banderas), Atriz Secundária (Julieta Serrano), Argumento Original, Montagem e Banda Sonora.

"Vocês deixaram-nos muito felizes esta noite", disse Almodóvar aos membros da Academia de Cinema.

Apesar das 16 nomeações e ser um dos favoritos, o reconhecimento não era garantido: nem sempre a Academia partilhou a devoção internacional ao cineasta, que, lamentando o tratamento injusto às suas produções, chegou a romper os laços e, durante anos, não frequentou os Goya.

"Dei-me conta que estava a escrever sobre mim mesmo e, com o passar do tempo, não sabia se ia continuar porque não tinha a certeza de querer expor-me a esse ponto. Mas continuei e agora estou muito contente", disse ainda Almodóvar ao receber a prémio do argumento.

Apesar de muito se ter especulado que "Dor e Glória" poderia ser a sua despedida do cinema, o discurso ao receber outro prémio, o de Melhor Realização, extinguiu as dúvidas que ainda existissem: "O tempo não passa com isto da dedicação ao cinema. Foi a experiência mais importante da minha vida, como espectador e como cineasta. Não concebo a vida sem continuar a filmar".

Em 34 anos dos Goya, trata-se da quarta vez que é distinguido um filme do Almodóvar: os outros foram "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Tudo Sobre a Minha Mãe" (1999) e "Volver" (2006).

Já para Antonio Banderas, incrivelmente o prémio é o primeiro competitivo na carreira (tinha um honorário) e foi saudado com uma ovação de pé do público no Palacio de Deportes José María Martín Carpena.

Mais alter-ego de Almodóvar do que nunca, foram para ele os maiores agradecimentos: "Tudo isto é Pedro. São 40 anos. Nunca conheci um artista com a lealdade que tens ao teu cinema. Aprendi tanto de ti, não só do mundo da arte, mas também da vida. Tinha de me encontrar contigo para chegar até aqui. Os melhores trabalhos foram os que fiz contigo. Espero que continuemos a ter a oportunidade de trabalhar juntos".

Após agradecer aos colegas de elenco, concluiu: "Hoje faz três anos que tive um ataque de coração. Não só estou vivo, como me sinto muito vivo".

Também Julieta Serrano, presente em vários filmes de Almodóvar (incluindo o primeiro, "Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo", em 1980) se estreou nos prémios, aos 87 anos, como Melhor Atriz Secundária.

Na cerimónia de três horas e 23 minutos e antes do "sprint" final, "Dor e Glória" dividiu protagonismo com "Enquanto a Guerra Durar", de Alejandro Amenábar, que era o outro grande favorito e ganhou cinco prémios das 17 nomeações: Ator Secundário (Eduard Fernández), Direção Artística, Guarda-Roupa, Caracterização e Supervisão de Produção.

O Goya de Melhor Atriz foi para Belén Cuesta por "La Trinchera Infinita", que, de outras 14 nomeações, só conseguiu também o prémio para Melhor Som. Inédito em Portugal, inspira-se numa história verídica de um homem (interpretado por Antonio de la Torre) que se esconde em casa com o eclodir da Guerra Civil Espanhola com medo de ser fuzilado pelos franquistas, onde acaba por permanecer durante 30 anos, partilhados com a esposa (papel de Belém Cuesta).

Noutras categorias, destaque para o Melhor Filme ibero-americano, atribuído à tragicomédia argentina "La odisea de los giles", de Sebastián Borensztein; Melhor Filme Europeu para "Os Miseráveis", de Ladj Ly, com estreia portuguesa prevista para 20 de fevereiro; e Melhor Animação para "Buñuel en el laberinto de las tortugas".

O Goya de honra atribuído à atriz e cantora Marisol, natural de Málaga, foi recebido pelas três filhas: a criança prodígio que marcou o cinema espanhol na década de 1960, agora com 71 anos, permanece um mito, reforçado pela completa retirada da vida pública em 1985.

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