A cena destruiu a vida de uma atriz e ofuscou a filmografia de um realizador. Antes do movimento #MeToo e do caso de Harvey Weinstein, "O Último Tango em Paris" (1972) e a sua cena forte de sodomia tornaram-se um símbolo da violência sexual na Sétima Arte.

No filme de Bernardo Bertolucci, Maria Schneider, que tinha 19 anos no início das filmagens, vive uma tórrida paixão com um viúvo americano de passagem por Paris, interpretado por Marlon Brando. O ator americano de "Um Eléctrico Chamado Desejo", "Há Lodo no Cais" e "O Padrinho" seria nomeado para o Óscar pelo papel.

Eles decidem não saber nada um do outro, nem mesmo o nome. Esse encontro, ao mesmo tempo duro e mórbido, atinge o seu auge numa cena de sexo não consensual, com uma barra de manteiga a fazer as vezes de lubrificante.

Embora tenha sido simulada, essa cena de violação garante a reputação do filme, mas marcaria para sempre a jovem atriz, como conta a sua prima, a jornalista Vanessa Schneider, em "Tu t'appelais Maria Schneider", livro lançado este ano pela Grasset.

Segundo a atriz, que faria mais de 50 filmes, nem Brando nem Bertolucci a tinham alertado sobre o uso da manteiga.

Ao voltar mais uma vez a esta cena, em entrevista ao jornal "Daily Mail" em 2007, a atriz diz que suas "as lágrimas eram verdadeiras" no filme.

"Senti-me humilhada e, para ser sincera, tive um pouco a impressão de ser violentada, por Marlon e Bertolucci. No fim da cena, Marlon não veio consolar-me ou desculpar-se. Felizmente, uma tomada foi suficiente", desabafou.

Jovem demais

As suas palavras foram reproduzidas com algum distanciamento pela imprensa, que preferiu dar voz ao realizador em detrimento da atriz, falecida em fevereiro de 2011.

Ao saber da sua morte, Bertolucci disse que "teria desejado pedir-lhe perdão".

"Maria acusava-me de ter roubado a sua juventude e, somente hoje, me pergunto se isso em parte não era verdade. Na verdade, ela era jovem demais para poder aguentar o impacto que teve o imprevisível e brutal sucesso do filme", sugeriu.

Em dezembro de 2016, a polémica voltou: um vídeo de 2013 reapareceu nas redes sociais e chocou Hollywood.

"A sequência da manteiga é uma ideia que tive com o Marlon na véspera da filmagem. Queria que Maria reagisse, que ela fosse humilhada", contava aí Bertolucci.

"Não queria que ela interpretasse a raiva, queria que ela sentisse raiva e humilhação", completou.

"A todos que gostaram do filme, vocês estão a ver uma jovem de 19 anos a ser violada por um homem de 48 anos. O realizador planeou a agressão. Isso dá-me nojo", escreveu então nas redes sociais a atriz Jessica Chastain, muito envolvida na causa das mulheres e, depois, no movimento Time's up.

Nos Estados Unidos, a polémica ganhou corpo, menos de um ano antes do caso do produtor Harvey Weinstein e das revelações sobre as agressões sexuais sofridos por várias atrizes.

Na sua reação, Bernardo Bertolucci considerou "desoladora" a ingenuidade daqueles que não sabem que "o sexo é (quase) sempre simulado no cinema".

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