O realizador italiano Bernardo Bertolucci, responsável por filmes como “O Último Tango em Paris” e o “Último Imperador”, faleceu em Roma, aos 77 anos, de doença prolongada, informaram esta segunda-feira os meios de comunicação italianos.

Era o autor de filmes como "O Conformista" (1970), "A Estratégia da Aranha" (1970), "O Último Tango em Paris" (1972), "1900" (1976) e o vencedor de nove Óscares "O Último Imperador" (1987), que fizeram dele “o grande maestro” do cinema italiano.

Nascido a 16 de março de 1941 em Parma, Itália, tendo estudo Literatura Moderna na Universidade de Roma, foi poeta, produtor, argumentista e cineasta com títulos radicalmente políticos que o tornaram uma figura determinante do novo cinema italiano ao lado de Federico Fellini,  Michelangelo Antonioni e Pier Paolo Pasolini.

Foi precisamente pela mão de Pasolini, que era amigo do pai, que se deu a entrada no cinema: ele contratou-o como assistente para o seu primeiro filme como realizador, "Accattone" (1961), e a seguir recomendou-o como argumentista para "La Commare Secca" (1962), um "thriller" sobre o homicídio de uma prostituta, que se tornou a estreia atrás das câmaras para o próprio Bertolucci aos 21 anos.

O seu filme seguinte, "Antes da Revolução" (1964), revelou-o internacionalmente, adaptando "A Cartuxa de Parma", de Stendhal, mas com contornos autobiográficos: antecipando a revolta da juventude europeia no final dos anos 1960, era a história de um jovem estudante dividido entre a sua existência burguesa e a militância comunista.

O fracasso comercial destes primeiros filmes levam-no a trabalhar como argumentista, por exemplo para Sergio Leone como um dos autores de "Aconteceu no Oeste" (1968).

Alida Valli e Giulio Brogi em "A Estratégia da Aranha" (1970)

O sucesso de "A Estratégia da Aranha", um telefilme filmado em seis semanas que estreou no cinema em vários países, e "O Conformista", ambos de 1970, relançaram a carreira.

O primeiro, que muitos consideram ainda a sua grande obra-prima, inspirava-se num conto de Jorge Luís Borges originalmente passado na Irlanda para contar a história de um homem que tenta descobrir as verdadeiras razões para o ditador fascista Benito Mussolini ter mandado executar o seu pai, vendo-se para isso obrigado a desmontar as teias de mentiras que este construiu.

"O Conformista", que lhe valeu a primeira nomeação para os Óscares, pelo argumento adaptado, partilha as mesmas temáticas, usando um romance de Alberto Moravia para contar a história de um jovem que aceita trabalhar para Mussolini em 1938 e progressivamente consolida essa ligação e o conformismo com o regime decadente.

A consagração internacional

Em 1972 chega "O Último Tango em Paris", o seu controverso e provocador olhar sobre os jogos de sedução e perversidade entre dois estranhos, interpretados por Marlon Brando e Maria Schneider.

A película ganhou fama pelo conteúdo erótico, de sexualidade quase explícita, algo até então inédito numa obra com uma estrela de primeira grandeza como era Brando, mas também gerou outra controvérsia que vai ensombrar a carreira de Bertolucci nas décadas seguintes: a de ele e Brando se terem aproveitado da inocência de Schneider, apenas com 19 anos, mantendo-a na ignorância sobre vários aspetos da famosa cena que envolve manteiga.

Robert De Niro e Gérard Depardieu em "1900" (1976).

A polémica, fama e a segunda nomeação para os Óscares, agora como realizador, permitem-lhe recrutar um grande elenco (Robert de Niro, Gérard Depardieu, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Sterling Hayden, Dominique Sanda) para o seu "1900" (1976).

Nele estavam as preocupações de sempre, política e sexualidade, repressão e perversão, mas em registo épico: era um retrato da história do seu país e dos acontecimentos políticos que moldaram o mundo através da história de amizade entre dois homens muito diferentes, um filho bastardo de uma família de trabalhadores rurais e outro herdeiro de uma família de proprietários ricos, desde o nascimento na viragem do século em Itália, até ao final da vida, colocados em lados ideológicos opostos.

Seguiram-se o mais intimista "La Luna" (1979), com  Jill Clayburgh, que andava à volta do incesto, e "A Tragédia de um Homem Ridículo" (1981), um ponto baixo, tanto em termos artísticos como comerciais.

Finalmente, a biografia de Puyi, o último imperador da China, com que quis fazer o retrato da passagem daquele país do feudalismo para a atualidade através, como sempre, da revolução: com a cooperação total das autoridades chinesas (foi o primeiro filme rodado na Cidade Proibida), demorou três anos a concretizar e custou 25 milhões de dólares, um valor considerável para um projeto feito em meados dos anos 1980 à margem dos grandes estúdios.

Os resultados são conhecidos: "O Último Imperador" foi um sucesso mundial, tendo sido galardoado com nove Óscares, entre os quais o de Melhor Filme. Para Bertolucci foram pessoalmente as estatuetas pela realização e argumento adaptado.

Mais tarde, voltou com “Um Chá no Deserto” (1990), “O Pequeno Buda” (1993), “Beleza Roubada” (1996) e “Assédio” (1998), mas sem o impacto, tanto artístico como comercial, dos seus melhores momentos, que só recuperou parcialmente com "Os Sonhadores" (2003), à volta das paixões políticas e sexuais de tres jovens (Louis Garrel, Eva Green, Michael Pitt) na turbulenta França da primavera de 1968.

Na rodagem de "Os Sonhadores"

A sua última longa-metragem foi "Eu e Tu" (2012), adaptando um livro de Niccolò Ammaniti.

No centro da história estava um jovem de 14 anos a cumprir o seu sonho de felicidade ao esconder-se na cave abandonada do apartamento onde vivia, em total isolamento com os seus livros de terror e fantasia, até que a visita inesperada de uma prima e o tempo que passam juntos o fazem ultrapassar esses dramas da adolescência e preparam-no para o grande salto no caótico jogo da vida adulta.

Bernardo Bertolucci com Tawakkol Karman e o Dalai Lama em 2014

Uma mal sucedida operação a uma hérnia discal deixou-o de cadeira de rodas durante mais de uma década, mas nunca deixou de preparar projetos e em 2011, recebeu uma Palma de Ouro honorária no Festival de Cannes pelo conjunto da sua obra.

Em abril disse à Vanity Fair que preparava um filme que andaria à volta do amor e da (falta de) comunicação, reconhecendo que era o tema preferido de Michelangelo Antonioni e "a situação com que me deparei quando passei dos meus filmes dos anos 1960 para um cinema de maior dimensão para ir de encontro a uma audiência maior".