A 18 de novembro de 1928, Mickey entrou em cena pela primeira vez, ainda a preto e branco mas já a assobiar e a conduzir um barquinho a vapor cujas chaminés soltavam fumo ao som da música, na curta-metragem animada “Steamboat Willie”.

O efeito foi absolutamente eletrizante nas audiências da época, ainda dominadas pelo cinema mudo, e desde então o ratinho nunca mais deixou o nosso convívio e conseguiu manter-se, ao longo de 90 anos, como uma das personagens imaginárias mais famosas do mundo, talvez mesmo a mais célebre de todos os tempos.

No grande e no pequeno ecrã, nas aparições ao “vivo”, nas páginas dos livros ou nas plataformas digitais, como pequeno aventureiro endiabrado ou como símbolo de um gigante empresarial, Mickey conseguiu manter-se na crista da onda, para lá de todas as modas e tendências, numa popularidade que tem atravessado todas as gerações. Como explicar esse fenómeno?

A popularidade de Mickey teve várias fases e várias vertentes, mas arrancou em grande no final dos anos 20 e teve uma fase inicial fenomenal na década seguinte. “Steamboat Willie” foi o terceiro filme de Mickey a ser produzido mas foi o primeiro a estrear nas salas, e desde logo se tornou um imenso fenómeno a reboque da grande novidade do cinema da época: o som síncrono em relação à imagem.

Numa época dominada pelo cinema mudo mas já a viver as convulsões do sucesso de “O Cantor de Jazz” (o primeiro filme de longa-metragem com diálogos síncronos e banda sonora musical), o surgimento de um desenho animado com efeitos sonoros e musicais a acompanharem de forma perfeita o que se via no ecrã era nada menos que eletrizante.

Steamboat Willie (1928)

Mas a personalidade que Walt Disney injetou no ratinho e o fulgor da animação que Ub Iwerks conseguia na época garantiram que o que podia ser apenas um “gimmick” fosse muito para lá disso: Mickey desenvolveu-se, os seus filmes sofisticaram-se e rapidamente deixaram a perder de vista tudo o que os seus concorrentes faziam na época.

Quer pela força da narrativa e da caracterização das personagens (o lado onde o próprio Walt era mais forte), quer pela aposta cada vez maior na qualidade da animação, com um custo que ia muitas vezes contra toda a racionalidade financeira mas que ia sendo equilibrado com muito esforço pelo irmão de Walt, Roy Disney, que se ocupava da vertente mais empresarial do estúdio.

As lendas sobre a criação de Mickey surgiram imediatamente, algumas ampliadas pelo próprio departamento de publicidade, mas o certo é que o ratinho surgiu de uma necessidade, de uma daquelas ocasiões em que Disney se recusou a jogar pelo seguro e apostou o tudo ou nada.

Quando Walt foi pedir um aumento de verba para cada filme da série animada que criara e então produzia mas de que não detinha os direitos, “Oswald the Lucky Rabbit”, o distribuidor Charles Mintz fez-lhe um ultimato: ou aceitava uma redução de pagamentos ou então saia do projeto. Sendo que, ainda por cima, a maioria dos seus funcionários tinham concordado nas suas costas em ir trabalhar para o novo patrão.

Disney optou por perder tudo e bater com a porta, e no caminho de comboio para casa, criou Mickey, que na verdade era inicialmente pouco mais que uma variação gráfica sobre a personagem anterior, com as orelhas compridas do coelho a serem substituidas pelas redondas do rato. A sua esposa Lillian achou que Mickey era um nome melhor que o inicialmente sugerido Mortimer e o resto é história.

Fantasia (1940)

Símbolo da resiliência e esperança

“Plane Crazy” e “The Gallopin’ Gaucho” foram os dois primeiros filmes de Mickey, ainda mudos e que não conseguiram encontrar distribuidor. Foi com a novidade do som síncrono injetada no terceiro, “Steamboat Willie”, que se deu a estreia, o sucesso e a fama, que levaram a que os títulos anteriores fossem sonorizados e lançados a posteriori.

Mas a Disney não se acomodou e continuou a investir em melhorar cada vez mais os filmes do ratinho, cuja energia perante a adversidade se tornou um símbolo de resiliência e esperança perante os horrores da grande crise económica dos anos 30. E essa década tornou-se chave na popularidade da personagem: em 1932, o entretanto criado Mickey Mouse Club já tinha um milhão de membros nos EUA e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood atribuiu a Walt Disney um Óscar honorário pela criação da personagem.

Entre os fãs dedicados de Mickey contavam-se nomes como o maestro Arturo Toscanini, o compositor Cole Porter, o Rei Jorge VI de Inglaterra, o Presidente Franklin D. Roosevelt e o realizador Sergei Eisenstein, que afirmou que o ratinho era a mais original contribuição cultural da América.

Nessa primeira primeira metade da década de 30, Mickey recebia mais cartas de fãs que qualquer estrela de Hollywood, a venda de relógios com a sua imagem salvou a empresa Ingersoll da falência e ele conseguiu ultapassar Charlie Chaplin como a figura mais conhecida do planeta.

Ao longo desse período e até 1946, a sua voz foi sempre a do próprio Walt Disney, aumentando a identificação entre criador e personagem, embora o primeiro nunca tenha negado a dificuldade que a partir de dada altura foi afetando o próprio Mickey e que de alguma maneira se mantém até aos dias de hoje: o ratinho tornou-se um herói e um verdadeiro modelo de comportamento, o que tornava cada vez mais difícil criar novas aventuras para uma personagem que não podia apresentar quaisquer defeitos.

Nesse sentido, o pato Donald rapidamente o ultrapassaria na preferência dos animadores e muitas vezes na do público, uma vez que era uma figura que podia errar e eventualmente aprender com os seus erros, o que permitia todo um leque mais diverso de histórias.

Aliás, ainda ao longo da década de 30, o Donald e o Pateta foram fazendo a função de comparsas cómicos em muitos filmes de Mickey, muitos deles pequenas obras-primas de graça, ritmo e sofisticação animada.

Em 1940, na luxuosa longa-metragem “Fantasia”, Mickey tem um dos seus papéis mais míticos, o do Aprendiz de Feiticeiro, que tenta controlar as vassouras a que deu vida e que não consegue fazer parar de transportar baldes de água.

TRAILER "FANTASIA".

Até 1953, Mickey ainda foi aparecendo regularmente no cinema em curtas-metragens, com “Lend a Paw”, co-protagonizado por Pluto a ganhar, o Óscar da especialidade referente a 1943, mas o formato da curta animada para cinema em exibição comercial desvaneceu-se nessa década com a emergencia da televisão.

Ainda assim, a popularidade de Mickey não se evaporou. Por um lado, e além de todo o merchandising, Mickey esteve presente logo desde 1930 na banda desenhada, com o genial Floyd Gottfredson a assinar até 1975 as tiras diárias do ratinho nos jornais, sendo que nas décadas de 30 e 40, consideradas o periodo de ouro da BD de aventuras norte-americana na imprensa, conseguiu um pico tal de qualidade que a série é ainda hoje uma das mais elogiadas dessa era dourada.

Por outro lado, Disney foi um dos primeiros a apostar na televisão e em 1955 estreou o Mickey Mouse Club, um programa diário que durou até 1959 e se tornou mítico, popularizando também os chapéus com as orelhas do Rato Mickey.

Finalmente, ainda em 1955, foi inaugurada a Disneyland e Mickey passou a receber os visitantes em “carne e osso”. Para muitos, foi a corporização física dessa figura imaginária, que podia interagir e tirar fotografias com os visitantes, que sedimentou de forma aparentemente permanente a figura do ratinho no imaginário colectivo.

Por essa altura, já a sua efígie imediatamente reconhecível se tornara um dos símbolos da empresa, não havendo falta de teorias sobre o lado de conforto e sedução que as suas formas arredondadas assumiam, até a nivel inconsciente, junto do público dos quatro cantos do mundo.

Uma presença constante numa cultura popular em constante mutação

O que é certo é que, com naturais variações de intensidade ao longo das décadas, a sua popularidade e reconhecimento popular nunca decresceu, algo que nenhuma ação de marketing, por mais sofisticada que seja, pode garantir.

A 18 de novembro de 1978, no dia em que celebrou 50 anos, tornou-se primeira personagem fictícia a ter uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood.

Ao longo dos anos, também a presença na BD foi sempre recorrente, muitas vezes até mais fora dos EUA que no próprio país, com países como a Itália e a França a criarem verdadeiros "best-sellers" que correram mundo, e de produção intensíssima até aos dias de hoje.

O "merchandise" continuou sempre a ser um fenómeno, atingindo um pico de 40% de todas as vendas da Disney na segunda metade da década de 90, chegando nos dias de hoje a receitas anuais de cerca de 3,2 mil milhões de dólares, incluindo as personagens associadas ao seu universo de referência (Minnie, Pateta…), mas excluindo vendas nas Disney Store e nos parques temáticos. E a abertura desses mesmos parques temáticos Disneyland no resto mundo garantiu que a sua versão de “carne e osso” desse abraços a fãs em quase todos os continentes, começando pelo Japão em 1983 e prosseguindo em França em 1992, Hong Kong em 2005 e China em 2009.

No pequeno ecrã, Mickey nunca deixou verdadeiramente o convívio dos espectadores. O “Mickey Mouse Club” teve encarnações em várias décadas, com destaque para a dos anos 90, com uma equipa de futuras super-estrelas que incluía Justin Timberlake, Britney Spears, Christina Aguilera, Keri Russell e Ryan Gosling.

The Mickey Mouse Club (1993)

Em animação, quer em desenho animado ou por computador, também foi estando muito presente, principalmente desde os anos 90, com grandes sucessos como o “Disney’s House of Mouse”, onde o ratinho geria um restaurante frequentado por todas as personagens Disney, e por vezes cativando logo o público pré-escolar, com o interativo e popularíssimo “Mickey Mouse Clubhouse”. Não esquecendo ainda o mais recente e estilisticamente mais arrojado “Mickey Mouse”, que tenta recuperar o humor desenfreado dos primeiros tempos e já conta com cinco temporadas desde 2013.

Mesmo ao cinema, Mickey foi regressando pontualmente, com a extraordinária curta “Get a Horse!/ A Cavalo” a conseguir uma nomeação ao Óscar em 2013.

Mesmo por via dos videojogos, com uma penetração cada vez maior em públicos de várias idades, Mickey foi estando sempre presente nas mais diversas plataformas, com destaque para o recente “Epic Mickey”, onde todo o universo Disney entra em jogo e há um regresso a uma faceta mais aventureira, parte de um esforço contínuo de atualização da imagem da personagem mantendo os traços que lhe garantiram a eternidade.

Isto já para não falar no apelo que Mickey teve ao longo das décadas junto dos mais diversos artistas plásticos, desde os icónicos Andy Warhol a Roy Lichtenstein nos anos 60, a nomes contemporâneos como Shinique Smith, Daniel Arsham ou Amanda Ross-Ho, que integram uma exposição com mais de 20 artistas de homenagem ao ratinho patente até fevereiro em Manhattan.

Na crista da onda aos 90 anos

Mickey Mouse (2013)

Com a popularidade assegurada, neste momento o futuro de Mickey parece conter apenas um grande ponto de interrogação: conseguirá a Disney adiar indefinidamente a sua entrada no domínio público?

Desde 1990 que a empresa tem feito um "lobby" intenso para adiar isso, a ponto de um dos atos que rege a extensão de direitos de autor nos EUA, o Copyright Term Extension Act, de 1998, ser popularmente conhecido como o Mickey Mouse Protection Act, de tal forma a Disney se envolveu na sua discussão.

Assim, no atual estado de coisas, “Steamboat Willie” entrará no domínio público já a 1 de janeiro de 2024 e todos os outros filmes se seguirão.

Significa isso que toda a gente vai poder usar Mickey como quiser?

Em princípio significa apenas que qualquer pessoa poderá fazer e comercializar cópias do filme porque a Disney garantiu que Mickey está protegido como marca registada, o que impede a sua utilização sem autorização por tempo indeterminado desde que a empresa que detém esse “trademark” o continue a utilizar. Mas não conseguirão especialistas em Direito encontrar alguma forma de tornear o tema?

De toda a maneira, uma coisa é certa: aos 90 anos, Mickey parece continuar na crista da onda.

Em 1987, o escritor norte-americano Harlan Ellison afirmou que “se um critério indiscutível para a grandeza literária é o reconhecimento, considerem isto: em toda a história da literatura, só há cinco criações ficcionais conhecidas por todos os homens, mulheres e crianças do planeta. O mendigo em Irkutsk pode nunca ter ouvido falar do Hamlet, o trabalhador em Pernambuco pode não saber quem é o Raskolnikov, a viúva em Jakarta pode ficar a olhar para o vazio à menção de Don Quixote ou de Micawber ou de Jay Gatsby. Mas todos os homens, mulheres e crianças no planeta sabem quem são o Rato Mickey, o Sherlock Holmes, o Tarzan, o Robin Hood e o Super-Homem”.

As considerações foram feitas num texto a propósito dos cinquentenário do Super-Homem, mas 31 anos volvidos parecem completamente atuais, principalmente no que diz respeito a Mickey, que parece continuar hoje tão jovem e viçoso como naquele momento fundador em que conduziu o barquinho a vapor ao longo do rio, a assobiar como se não tivesse qualquer outra preocupação no mundo.