É possível uma Hollywood totalmente inclusiva? Frances McDormand aproveitou a noite de gala dos Óscares para pôr uma solução sobre a mesa: uma "cláusula de diversidade" nos contratos.

A ideia circula há tempos, mas nunca havia sido proposta na maior festa da indústria do cinema. Coroada com o Óscar de melhor atriz no último domingo (4) pelo seu papel em "Três Cartazes à Beirda da Estrada", Frances a defendeu com entusiasmo.

Nos últimos anos, cada edição dos Óscares é marcada por uma causa: de #OscarSoWhite, a favor da minoria negra, às atuais #TimesUp e #MeToo, em defesa das mulheres.

Criticado pela falta de diversidade, os Óscaress são uma montra perfeita para pedir mudanças na meca do cinema. Mas... depois da festa, realmente acontece alguma coisa que vá além dos discursos?

Os Óscares deste ano fecha uma temporada de prémios varrida por uma onda de escândalos de assédio e de abuso sexual liderados pelo produtor Harvey Weinstein e por outros pesos-pesados da indústria, que caíram em desgraça.

Na cerimónia, o comediante Jimmy Kimmel convidou Hollywood a liderar um caminho de inclusão e de igualdade de género, e o rapper Common e a cantora Andra Day cantaram com militantes feministas no palco.

Também houve apelos para um maior controle do porte de armas e contra a política anti-imigração do presidente Donald Trump.

Na hora da entrega das estatuetas, porém, foi mais do mesmo. Os ganhadores eram, na sua maioria, homens brancos. Exceção, talvez, para o mexicano Guillermo del Toro, que levou os prémios mais prestigiados - melhor filme e melhor realização - por "A Forma da Água".

Jordan Peele foi o primeiro negro a ganhar o Óscar de Melhor Argumento Original, categoria na qual também competiam Del Toro e o comediante paquistanês Kumail Nanjiani.

Nas 20 categorias, 47 mulheres eram candidatas e apenas quatro ganharam o ambicionado prémio. Dos 150 homens nomeados, 32 levaram uma estatueta, segundo um estudo do site especializado Gold Derby.

"Temos histórias para contar que precisam de financiamento", lançou Frances McDormand, no teatro Dolby, após convocar todas as nomeados presentes a ficarem de pé.

Poder na mão de quantos?

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tem 28% de membros mulheres, e 13%, de "pessoas de cor", uma frase muito usada nos Estados Unidos para se referir a qualquer pessoa que não seja branca (em 2015, representavam 8%).

"Ainda que mudanças significativas possam estar em andamento em várias estruturas de Hollywood, o facto é que os números não refletem qualquer mudança", apontou a diretora do Centro para o Estudo da Mulher na Televisão e no Cinema, Martha Lauzen, da Universidade de San Diego.

"Em 2017, as mulheres representaram 11% dos realizadores nos 250 filmes de maior sucesso comercial. Essa percentagem é a mesmo que em 2000", criticou.

Greta Gerwig ("Lady Bird"), por exemplo, foi a única mulher nomeada para a estatueta de melhor realização este ano e a quinta na história dos Óscares, enquanto Rachel Morrison foi a primeira nomeada por fotografia.

"Mas há exemplos de filmes, como 'Black Panther', ou 'Mulher-Maravilha', que sugerem que há uma maior abertura para se fazer as coisas de maneira diferente", afirmou Katherine Pieper, investigadora da Annenberg Inclusion Initiative, referindo-se a dois filmes dirigidos e protagonizados por um negro e por uma mulher, respectivamente, algo atípico no género de super-heróis.

Agora, a Disney lança "Uma Viagem no Tempo", dirigido por Ava DuVernay, a primeira afro-americana responsável por uma produção com orçamento de mais de 100 milhões de dólares, e que tem um elenco não branco na sua maioria.

Nos bastidores, Frances McDormand disse que até uma semana antes da cerimónia ouviu burburinhos sobre essa "cláusula de inclusão" proposta por Stacy Smith, fundadora e diretora do Annenberg. Com ela, os atores poderiam exigir nos seus contratos que haja diversidade no elenco e na equipa de produção.

"Mas quantos atores e realizadores têm o poder de fazer essa exigência?" e "quantos farão uso desse poder?", questiona Lauzen, que defende "metas de contratação", ou seja, quotas.

Além disso - completa -, mais mulheres em posições de poder reduziriam o sexismo e criariam mais postos de trabalho para outras mulheres.

Porém, esse não é um acordo tácito a ser levado ao pé da letra. Kathleen Kennedy, por exemplo, chefe do império "Star Wars", contratou até agora apenas homens brancos para os filmes da saga.

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