Se os protagonistas-dançarinos da série “Fama”, com os seus sonhos e mesquinharias, embarcassem subitamente numa “trip” para o Inferno, o resultado seria “Clímax”.

Gaspar Noé, realizador de “Irreversível”, obra ainda hoje não esquecida pelos muitos que a assistiram pelos idos de 2002, está de volta às salas portuguesas com um filme que estreou no Festival de Cannes, onde recebeu um prémio na Quinzena dos Realizadores e se tornou um dos mais consensualmente positivos trabalhos do cineasta junto da crítica.

"Clímas" marca o regresso de um cineasta que nunca se abstém de provocar, seja com a viagem alucinogénia de “Enter the Void” ou com a sexualidade de “Love” – onde os próprios protagonistas faziam cenas de sexo explícito, muitas das quais nem sequer coreografadas.

O filme começa com os créditos finais e, a partir daí, o enredo avança por um sóbrio exercício documental: uma coreógrafa e os seus dançarinos falam dos seus sonhos, dos seus medos, das suas vidas. Este momento é seguido por um número musical suficientemente longo e bem coreografado (e, claro, dinamicamente filmado) para agradar a qualquer fã de dança.

O número antecede a festa de despedida deles antes de embarcar para uma “tour” nos Estados Unidos e aparentemente foi na “sangria” (a bebida, já que o descalabro ainda não começou) que estava o estopim para as coisas começarem a não correr muito bem…

TRAILER DE "CLÍMAX".

As fantasias pós-modernas já há muito exploram o surreal a invadir o quotidiano sem outra explicação que não um caráter alegórico e em "Clímax" os ambientes chegam a lembrar os trabalhos do grego Yorgos Lanthimos (o realizador de "Canino", "A Lagosta" e agora na corrida aos Óscares por "O Sacrifício de Um Cervo Sagrado").

Noé sugere um caráter existencialista manifesto nas citações espalhadas aqui e ali de forma “godardiana” em sentenças como “A morte é uma experiência deliciosa” ou “A vida é uma impossibilidade coletiva”. Só que, ao contrário do célebre realizador da "Nouvelle Vague", ele insere um certo experimentalismo, que tem sido celebrado como um prodígio técnico e ponto culminante da sua carreira, dentro de uma dinâmica narrativa e não como um fim em si mesmo.

Por outras palavras, quando o grupo de dançarinos começa pura e simplesmente a “flipar” (a arte performática parece estar numa curiosa simbiose com a demonstração da loucura), Gaspar Noé e a sua equipa desenvolvem um cenário labiríntico e colorido onde as câmaras ganham total liberdade em movimentos variados e ângulos diversos ao serviço da criação de um horrendo pesadelo, às tantas lembrando um hospício onde todos os loucos foram libertados sem medicação.

Há cenas de violência física e psicológica terríveis – embora não desconhecidas de apreciadores de Lars von Trier ou Michael Haneke. A meio de "Clímax", numa cena onde cai subitamente a energia elétrica, um personagem fornece o diálogo para uma das piadas mais macabras de que se tem memória.

Gaspar Noé parece querer dizer que esses jovens ao serviço da fama, sem maiores princípios que os da satisfação de um hedonismo primário, bem podem ser o retrato de uma França convulsa e sem futuro – onde a degenerescência sem sentido parece o único final possível.

 

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