Em declarações à agência Lusa, Tchalé Figueira explicou que a exposição coletiva numa área à entrada da Assembleia Nacional foi organizada pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas para assinalar o 13 de janeiro, dia da Liberdade e da Democracia.

O artista informou que participou "por amizade" ao Manu Preto, o curador da exposição, mas depois deu conta que os dois quadros foram retirados, sem qualquer explicação.

Tchalé Figueira foi hoje à Assembleia Nacional, juntamente com outros artistas, para protestar contra a decisão e disse que foi informado pela secretária do parlamento, Marlene Dias, que os quadros foram retirados porque feriam suscetibilidade das pessoas.

"Pelos vistos, os quadros foram censurados por ser de teor erótico, nada do outro mundo. O nu existe na arte desde os tempos primórdios, desde a cavernas, os romanos, gregos, hindus, etc", contextualizou.

Tchalé Figueira disse não compreender a decisão, considerando que se desde o princípio se sabia que os quadros iriam ferir suscetibilidades, não deveriam ser aceites.

"Mas foram aceites e acho que tinham todo o direito de estar aqui expostos, as pessoas podiam gostar ou não", salientou, dizendo que ainda não teve, novamente, acesso aos quadros e que não sabe do seu paradeiro.

"Mas tudo isto tem a ver com uma certa moral que existe em Cabo Verde, uma pseudo-moral porque em Cabo Verde há crianças que são violadas todos os dias, há prostituição infantil e outras coisas terríveis que passam neste país e que as pessoas fingem não ver. São pessoas talvez com muitas recalcamentos morais, religiosos e que quando veem um órgão genital numa obra de arte e pensam logo que aquilo é obsceno. Mas acho que a obscenidade são as pessoas que têm todas essas minhocas na cabeça e que viram algo de obsceno nas minhas obras", afirmou o artista.

Na entrevista à Lusa, Tchalé Figueira não escondeu a sua insatisfação, considerando que foi uma "ofensa grande" a um artista com 40 anos de carreira e que já expôs em quase todos os países do mundo.

"Sinto-me triste por isso, porque Cabo Verde deveria estar mais evoluído em termos culturais, mas nota-se que é um país onde há danças lascivas de crianças e coisas do tipo, mas as pessoas acham que uma obra de arte é suja e aquilo que as crianças fazem, por exemplo, muitas vezes incutidas pelos pais, não é sujo", continuou.

Lamentando o "percalço", o artista plástico aproveitou para apelar aos governantes que invistam na educação, para que, no futuro, o país possa ter pessoas com mais cultura e que "não estejam a ver fantasmas ou que curam as suas próprias fantasmas".

"Não preciso nada disso. Fiz isso por mera amizade ao Manu Preto e também como simbolismo de liberdade, mas pelos vistos a liberdade ainda é muito quadrada em Cabo Verde e censuram os meus quadros. Foi censura", terminou Tchalé Figueira, que além da pintura, é autor de uma vasta obra literária, de contos e poesia.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Santos, escusou-se a comentar o caso, indicando, através da assessoria de imprensa, que o parlamento está a recolher todos os dados para depois emitir um comunicado de imprensa.

A exposição, que ficará patente até 31 de janeiro, conta com quadros de duas gerações de artistas, nomeadamente Leontina Ribeiro, Paula Rosa, Omar Camilo, Heleno Barbosa, Domingos Luísa, Hélder Cardoso, José Duarte, Joaquim Semedo, Isaías Garcia, Nuno Prazeres, Sabino Hora e João Batista.

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