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E se a escravatura ainda existisse nos EUA? Nova série dos criadores de "A Guerra dos Tronos" causa polémica

E se o Sul tivesse vencido a Guerra Civil Americana? É essa a premissa por detrás da série recentemente anunciada pelo canal HBO, que provocou uma reação acalorada num país que ainda luta com o legado da escravatura e os seus impactos geracionais na comunidade afro-americana.

Depois de #oscarssowhite, a nova hashtag a dar que falar no Twitter é #noconfederate.

Revelada em meados de julho, "Confederate" será dirigida pelos criadores de "A Guerra dos Tronos" David Benioff e D.B. Weiss, habituados às críticas sobre o elenco maioritariamente branco da sua série de fantasia épica que está atualmente na sétima temporada.

A nova série passa-se num mundo onde os estados do sul se separaram com sucesso durante a Guerra Civil (1861-65) e a escravatura continua a ser praticada, à medida que os Estados Confederados da América se preparam para uma nova guerra contra a União.

"Os mesmos tipos que oferecem cenas gratuitas de violação e nenhuma personagem negra significativa (em "A Guerra dos Tronos") vão abordar a escravatura dos negros com nuances" na nova série, twitou a ativista April Reign, que criou a hashtag de sucesso #OscarsSoWhite para protestar contra a falta de diversidade entre os nomeados aos Óscares de 2016.

Weiss e Benioff estão a trabalhar com o casal de produtores executivos Malcolm Spellman e Nichelle Tramble Spellman (conhecidos por "Empire" e "The Good Wife", respectivamente), que são negros e defenderam vigorosamente o projeto, que deverá ir para o ar em 2018 ou 2019.

Isso não impediu uma campanha nas redes sociais com o objetivo de cancelar o programa, com a hashtag #NoConfederate a tornar-se na principal tendência no Twitter durante a transmissão do episódio de "A Guerra dos Tronos" do último domingo.

"Fantasias dos homens brancos"

Questionado por um utilizador do Twitter sobre se poderia ver-se a si próprio a assumir um papel na série, o ator negro Don Cheadle respondeu: "Depende do papel. Como sempre. Mas eu estou mais do que céptico sobre o projeto em geral".

Stephane Dunn, professora da Morehouse College, questionou a premissa "dado o facto de ainda vivermos numa sociedade que ainda tem uma orientação da supremacia branca enraizada".

"E há a outra questão: será tão revisionista que não reconheceremos a escravatura americana. Pode ou não haver uma espécie de glamourização não intencional", acrescentou.

Questionada sobre a controvérsia, a HBO enviou uma declaração à AFP que indica que não há nenhuma intenção de cancelar a série.

"Temos um grande respeito pelo diálogo e pela preocupação que está a ser expressada em torno de 'Confederate'", disse o canal.

"Temos fé que Nichelle, Dan, David e Malcolm abordarão o assunto com cuidado e sensibilidade. O projeto está atualmente no início e esperamos que as pessoas guardem as suas críticas até que haja algo para ver", acrescentou.

As séries de história alternativa obtiveram um considerável sucesso de crítica nos últimos anos, incluindo, sobretudo, "The Handmaid's Tale", da Hulu, mas também "The Man in the High Castle", da Amazon, e "SS-GB", da BBC.

As duas últimas, que imaginaram as ocupações nazis dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, respetivamente, não provocaram indignação generalizada entre os judeus.

Para os críticos de "Confederate", a questão de quem conta a história - tanto à frente da câmara como atrás dela - é tão importante quanto o retrato televisivo da escravidão.

Uma controvérsia semelhante surgiu em torno do filme "Detroit", que evoca os tumultos na cidade em 1967 e a repressão à comunidade negra, já que o realizador e toda a equipa de produção são brancos.

O artista e ativista Bree Newsome disse que a oposição ao programa "não é apenas uma questão de História, também é uma questão de o género de fantasia ser amplamente limitado às fantasias dos homens brancos".

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