Mayra Andrade assume: tem tanto de “Lovely” quanto de “Difficult”. Directa, sem meias palavras e de personalidade forte, é assim que se define aquela que é actualmente um dos nomes mais sonantes do panorama musical cabo-verdiano.

Mayra deu o salto e com o seu último trabalho, “Lovely Difficult”, abandona o tradicional e segue para um estilo mais Pop. Com esse passo não tem receio de ser mal-encarada por um Cabo Verde que, acredita, continua relutante a novos estilos que não os tradicionais. A cantora falou-nos sobre o seu quarto álbum com lançamento previsto para Outubro deste ano.

“Lovely Difficult”, explique-nos o porquê da escolha desse nome para o álbum

Essa escolha vem de uma alcunha que uma pessoa muito próxima me colocou. Este disco é muito menos tradicional - na verdade não tem nada de tradicional - e nesse sentido talvez seja mais pessoal. Acaba por ser o reflexo do meu quotidiano e da minha vivência. Então, por isso mesmo, achei que ficava bem dar-lhe um “nominho”… digamos que é um pouco um disco de emancipação.

Porquê esse salto para o mundo Pop?

Por vezes estás tão ligada ao tradicional que há quase uma expectativa e até uma cobrança de algumas pessoas para que fiques sempre nesse registo. A mim, quando me dizem para não fazer algo, gosto de desafiar. Eu preciso sempre de “challenge”. Para mim era importante fazer este disco porque era essa necessidade de “challenge” que estava a sentir. Fiz “Navega” (2006), depois senti vontade de fazer o “Stória Stória” que é um disco muito mais rebuscado, mais programado que o “Navega” que foi assim mais ao estilo tocatina. Depois do “Stória Stória”, em que eramos muitos na estrada, senti vontade de fazer algo mais minimalista. A seguir surgiu o “Studio 105” em que eram apenas 3 músicos a acompanhar-me. Algo mais jazz. Tão jazz que mais tarde senti vontade de fazer algo mais descontraído.

Disse que este disco é mais “Mayra Andrade”, tem mais de si. Mas de que forma esteve presente nos anteriores?

Não sei. Todos nós somos feitos de luz e de treva. Não fui outra pessoa. Sou eu à mesma. Nós não somos um monocromo. Os dois primeiros discos, em estúdio, tinha uma necessidade de afirmação. De firmar o “tradison” e alguns ritmos que não era conhecidos por cá. E era para mim muito importante afirmar-me como artista tanto no plano internacional como em Cabo Verde. Com isso feito acho que não tenho mais obrigações nem justificações a dar. Agora quis fazer uma coisa por prazer. Tenho acesso a autores, compositores que nada tem a ver com Cabo Verde mas que são da minha geração e que seria realmente uma pena não aproveitar apenas por não serem cabo-verdianos. O disco tem músicas de um americano, israelita, inglês, francês… Pessoas que têm as suas carreiras, muito reconhecidas mas que tiveram a gentileza de cederem as suas músicas porque já eram fãs do meu trabalho.

Agora assumiu uma nova vertente na sua música, mais POP. Acredita que assim consegue chegar a outro público?

Sim, e já está a chegar. Porque o disco ainda não saiu mas em França a produtora está a preparar o lançamento e a fazer parcerias com os media e já estamos a ter luz verde de televisões e rádios que normalmente a World Music não tem acesso.

Mas e em Cabo Verde? Com isso não tem receio de se afastar mais de Cabo Verde e de não ter a mesma aceitação?

Não. E estou admirada porque nunca me falaram tanto de uma música como agora, com o “We used to call it love”. Tenho uma média de 6 a 15 pessoas por dia que se dirigem a mim e falam do tema. Por enquanto tem sido muito positivo mas, obviamente, espero que o público adira também ao disco no seu todo.

Qual a história por detrás desse single?

É uma composição que existe há mais de 10 anos mas estava fechada numa gaveta, deste compositor, Pascal Danae. Quando ele mostrou-me o tema achei que estava incompleto. Faltava qualquer coisa. Então compus e escrevi aquela parte em crioulo. É uma parte pequena mas achei que assim as pessoas em Cabo Verde iriam identificar-se mais. Foi quase que um ‘piscar de olho’ ao meu público cá. Assim como o tema “Terra Longi”, também música de Pascal, que não tinha letra. Quando ouvi a melodia fez-me instintivamente pensar em Cabo Verde e a letra que compus é uma homenagem ao meu país.

Pode dizer-se que este disco é um paradoxo?

Sim, pode-se dizer que sim. Tem aquele “Lovelly” e o “difficult”. É uma dualidade. É fruto de uma coprodução, coproduzi o disco com Mike Pelanconi. Ele nunca tinha feito nada World Music, eu nunca tinha andado pelo estilo Pop. No fundo éramos dois ‘analfabetos’ que tinham apenas as suas antenas para se orientarem. Houve muita troca e partilha. É nesse sentido que o disco é um paradoxo. E fiquei muito aliviada de termos conseguido um equilíbrio, uma unidade.

É a primeira vez que grava em inglês…

No álbum “Studio 105” gravei ‘Michelle’ mas é a primeira vez que gravo inéditos que me foram dados para cantar. Tenho 3 músicas em inglês neste “Lovely Difficult”. Essa decisão parte da minha reflexão sobre gravar ou não músicas de compositores que não são cabo-verdianos. A partir do momento que decidi quebrar essa barreira resolvi fazer a minha selecção musical independentemente do idioma. O meu maior “finka pé” foi com as músicas que tinha feito mas que ainda não tinham letras. A Sony acreditava que tinham grande potencial mas queriam que as músicas fossem em francês. Aí tive que defender o crioulo. Pelo menos metade do disco tinha que ser na minha língua materna, também preciso disso.

Considera que é um disco mais acessível?

Sim, sem dúvida. Eu quis fazer um disco mais acessível. Isso assumo, completamente. World Music é um estilo para entendidos, para um público que já está sensibilizado. Já o “Pop Music” tem um ponto forte. Aquele aspecto melódico que o faz universal, que toca qualquer pessoa. Cansei-me daqueles espéctaculos cheios de arranjos, notas complicadas. Eu venho dessa escola. Mas partir desse ponto para fazer algo mais simples até é mais complicado. Simplicidade é algo difícil. Como diz Vinicius de Moraes, “menos é mais” e isso vai ser agora um dos meus lemas nos próximos espectáculos.

Pensa que Cabo Verde precisa de algo revolucionário que desprenda das raízes tradicionais?

Acho que sim. Os cabo-verdianos ainda mantêm-se muito relutantes a tudo o que não seja tradicional, nosso. Muitos artistas têm receio de chocar o público e opiniões porque a música tradicional é defendida como um cristal e eu … quer dizer… não preciso provar o que o tradicional provoca em mim. Há muitos jovens hoje em dia que são fruto de uma vivência diferente e nós não podemos condená-los e limitá-los a fazer aquilo que os nossos pais ou nossos avós fizeram. Assim estamos a sufocar a criatividade de cada um. Temos sim de fazer coisas com autenticidade, com verdade e qualidade acima de tudo. Mas defendo essa liberdade.

Admite que tem um estilo próprio definido?

Claro que sim, eu envolvo-me na direcção musical dos meus discos também e acho que há uma coerência … desde o primeiro trabalho. As pessoas que me conhecem ou acompanham o meu trabalho não têm sensação que houve uma rotura com este novo álbum. Houve sim uma mudança, uma viragem, mas não rotura. E isso é importante. É importante para mim que continue a ser reconhecível.

No início da sua carreira adiou muito a ida a estúdio. Optou primeiramente pelos palcos, porquê?

Porque ou não tinha nada a dizer ou não sabia bem ainda como dizer. Eu tenho receio de tudo o que me amarra desde um acordo, um contrato… Para mim um disco é como os 10 mandamentos. Podem passar, 5, 10, 40 anos mas tens de olhar para trás e continuar a rever-te nele.  E enquanto não estive preparada para isso … Gravar um disco é muito complexo e sério. Mas também não condeno aqueles que começam por um disco. Eu tive a sorte de ter pessoas que programaram o meu percurso e sobrevivi vários anos apenas a cantar, até aos 21 anos quando fui a estúdio.

Uma média de quantos espectáculos faz por ano?

Uma média de 80 a 120.

Como é a Mayra Andrade na música?

Comigo nada é branco ou preto. Tenho os meus dilemas. Uma vontade de ultrapassar barreiras de World Music ao mesmo tempo que falo muito de Cabo Verde.

Nunca ponderou fazer outra coisa que não fosse música?

Não, sempre foi música. Digamos que para dar uma satisfação à minha família pensei fazer eventualmente outras coisas. Durante muitos anos pensei em fazer Psicologia Clínica. Recebi uma bolsa do governo francês para ir fazer arte e comunicação. Mas acabei por suspender a faculdade para me dedicar só à música porque já estava a fazer concertos.

Os seus trabalhos já tiveram a participação de diversos músicos e artistas. Mas há ainda alguém com quem gostasse de partilhar o palco?

Sim, muita gente. Claro que sim. Por exemplo o Caetano Veloso, Pablo Milanés, Steve Wonder. Espero ter vida, saúde e oportunidade para experimentar ainda muita coisa.

Quando começa a tournée de divulgação do “Lovely Difficult”?

Vamos começar já em Outubro.

E em Cabo Verde?

Lá fora os promotores convidam-nos, programam os concertos e é mais fácil. Aqui tem de ser por iniciativa pessoal, de encontrar algum produtor que esteja interessado e fica mais complicado. Já agora lanço um apelo, se houver uma empresa que esteja interessado a trabalhar com seriedade, profissionalismo e antecedência para organizar uma tournée em Cabo Verde, nas várias ilhas. A minha prioridade neste momento é montar um espectáculo visto que a tournée está à porta.

Como espera que as pessoas sintam esse novo trabalho?

Espero que este disco as toque. Geralmente depois de todo aquele trabalho de gravação, mixagem, muito tempo no estúdio a ouvir aquelas músicas já nem volto ao disco, canso-me. Mas com este tem sido diferente. Tenho prazer em ouvi-lo e espero realmente que o público tenha igual prazer, que a aceitação seja boa e que entendam essa minha mudança.

21-08-2013