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“Já fui a lugares que nunca imaginei. Foi a 'gaita' que me levou”, Bitori nha Bibinha

Músico de 79 anos foi recentemente homenageado na VII gala dos Cabo Verde Music Awards.

créditos: CM

Aos 18 anos, partiu para São Tomé e Príncipe para conseguir 750 escudos para comprar uma gaita. Realizou o sonho mas passou três anos na roça Rio Douro. Natural da ilha de Santiago,  Bitori Nha Bibinha é um reconhecido tocador de gaita e um ícone do funaná. Hoje aos 79 anos, continua a ensinar aos interessados a arte de tocar a gaita (acordeão).

A 10 de março de 1935, nascia em São Nicolau Tolentino, na altura freguesia do concelho de São Domingos, ilha de Santiago, Victor Tavares, mais conhecido no meio artístico como Bitori Nha Bibinha.

Aos seis anos mudou-se para a capital Praia e foi nesta cidade que concluiu a 3ª classe. “Os meus estudos são a gaita”, defende-se. Autodidata e apesar de não saber ler a pauta musical é um exímio tocador de gaita e atualmente o mais antigo músico neste ramo. "Sou o mais teimoso", diz com um sorriso.

Mas para conseguir a sua primeira gaita, que atualmente faz parte de uma coleção privada nos EUA, Bitori passou um mau bocado. Aos 18 anos, para comprar o instrumento, resolveu ir trabalhar nas roças de cacau em São Tomé e Príncipe. E assim partiu, à semelhança de centenas de cabo-verdianos no navio "Ana Mafalda”.

Depois de um ano conseguiu juntar 450 escudos, uma gaita custava 750. Lá comprou a sua gaita e ficou a dever ao “patrão”. Até hoje.

Recorda que na entrada da roça Rio Douro existia uma inscrição: “Quem entra, não sai. Quem sai não entra”. Na altura pensou com os seus botões: “Mas eu vou sair daqui”. E saiu, depois de três anos. “Não desejo voltar, só se me levarem”.

A sua primeira gaita, passado muitos anos, ofereceu a um amigo nos EUA para a sua coleção privada. Nos tempos que correm, Bitori tem apenas uma gaita e diz sorridente que o preço do instrumento é “igual a de um boi”, pode chegar aos 80 contos.

De regresso a Cabo Verde, dedicou-se a tocar gaita em Achadinha e “a beber grogue”, afirma em tom de brincadeira. Na altura, era proibido tocar o instrumento nas ruas. “Os portugueses não deixavam. Se fosses apanhado, diziam-te para parar. Se não obedecesses ficavam com a gaita e ias para a cadeia”.

Para pagar as contas, foi pedreiro uma vida. Até aos 64 anos. Recorda que ajudou a construir o Liceu Domingos Ramos, na Praia, bem como outros edifícios no Platô. “Vínhamos buscar pedras aqui (Palmarejo). Um dia, magoei as costas. Tenho dores até hoje”.

Quando conheceu Chando Graciosa, natural do Tarrafal, com o qual fundou o grupo “Peitoral” começou a atuar em bares, restaurantes e festas. Chegaram a atuar em Portugal. Depois de uma ida a este país europeu, Chando e Zé Mário (outro integrante da banda) não regressaram mais a Cabo Verde. Bitori regressou, aliás viver na Europa nunca fez parte dos seus sonhos.

Em 1997, Bitori foi convidado para ir à Holanda para gravar o seu primeiro álbum “Bitori Nha Bibinha”. Este trabalho foi reeditado em 2016, com o título “Legend Of Funaná (The Forbidden Music of The Cape Verde Islands)” ( A Lenda do Funaná ( a música proibida das ilhas de Cabo Verde).

Ensino

“Não gosto de kotxi pó”, diz sem papas na língua. Explica que este género além de ser “interminável”, não explora a gaita enquanto instrumento. “Não sentes nada (ao tocar kotxi pó)”, desabafa. Para Bitori, o bom funaná é tocado com a gaita.

“Toco a pensar nas pessoas”, argumenta o músico que afirma ainda estar sempre atento à reação do público.

Apesar do segredo ser a alma do negócio, Bitori não se inibe em partilhar a sua arte com os que o procuram. Tanto em sua casa, onde dá aulas pagas, como num espaço público em Achadinha, que foi criado para o efeito, há alguns anos.

Em casa cobra cinco mil escudos. “Podem ter aulas comigo, todos os dias à tarde”. Para Bitori, aprender gaita exige uma prática constante.

Segundo o músico, poucos são os tocadores que atualmente usam o lado esquerdo (baixo) para tocar. “Na gaita, todos os botões são para tocar (21 de um lado e 8 de outro)”, argumenta.

Questionado sobre o motivo de não haver quase mulheres a tocar gaita, Bitori responde que “elas desistem mais rápido ou não têm tempo”, mas garante que já teve alunas mulheres.

Afirma que é um professor brando e que quando fica mais impaciente com algum aluno, levanta-se e vai dar uma volta mas que não fica chateado.

Dos 10 filhos do artista apenas um, Victor, o mais novo, toca gaita. A residir em Portugal, devido a um problema de saúde, Bitori diz que o filho não consegue atuar por muito tempo justamente por causa da sua condição.

De Cabo Verde para o mundo

Em 2014, Miriam Brenner, a atual manager de Bitori, conheceu Samy Ben Redjeb que mais tarde lhe deu a conhecer o Atlantic Music EXPO (AME) e o trabalho de Bitori Nha Bibinha.

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