Artigo

Grupo teatral “Somá Cambá”: “Os atores pagam para fazerem teatro em São Vicente”

Grupo apresentou três peças durante o 'Março, Mês do Teatro' em Mindelo

“Somá Cambá” é o nome de um dos grupos que têm conferido dinamismo ao teatro na cidade do Mindelo. O grupo existe desde 2011 e é constituído por treze jovens que apostam na formação e no profissionalismo.

O grupo nasceu em 2010, fruto do projeto “Teatro nas Escolas”, iniciativa da professora de Formação Pessoal e Social no Liceu Jorge Barbosa, Patrícia Silva. Em parceria com Di Fortes, juntou alunos do Liceu Jorge Barbosa e da Escola Técnica para trabalharem na peça “E porque não?” que fez a abertura do festival Mindelact em 2011.

Do projeto, que tinha como objetivo promover a criatividade no ensino, saiu um grupo dos mais persistentes que quiseram seguir a via do teatro e que formaram então o grupo “Soma Cambá”.

Formalizaram o grupo em 2011 e deram continuidade aos ensaios, orientados por Patrícia Silva, Di Fortes e Moisés Delgado. Entre finais de 2012 e início de 2013, depois da apresentação da peça “Just in time”, o grupo ganhou autonomia embora continue, ainda hoje, sob os olhares atentos dos antigos professores e orientadores.

A princípio era constituído por jovens alunos da Escola Técnica, Jorge Barbosa, Ludjero Lima e José Augusto Pinto mas, depois de algumas entradas e saídas, é hoje um grupo diversificado, composto também por estudantes universitários e trabalhadores. Um total de 13 elementos no momento ativos, com idades compreendidas entre os 17 e os 25 anos.

“Ex-esquadra”

“Somá Cambá”, que dá nome ao grupo, é também o nome pelo qual é conhecido o espaço onde ensaiam, também denominado por “ex-esquadra”, o que os levou então a adotar a expressão. “Somá Cambá”, também nome de uma peça do grupo Craq’Otchod, foi a primeira a ser apresentada nesse mesmo espaço.

Péricles Silva, 21 anos, é um dos responsáveis do grupo “Somá Cambá” e explica que todos os integrantes, além de representarem, têm formação em outras áreas ligadas ao teatro como direção artística, iluminação, cenografia, sonoplastia e dramaturgia. Pensam cada peça como um todo e são os próprios, os responsáveis pelo guarda-roupa, cenários, som e iluminação.

Têm apresentado somente peças originais mas este ano, pela primeira vez, têm duas peças em cena no Março Mês do Teatro, que resultam de adaptações de narrativas: “Paródia”, de Harold Pinter e “Dixbunda” de Plínio Marcos.

“Sem Chinel”, “Futuro no passado”, “À chegada”, “Nas Profundezas do meu cu”, “Just in time” e “E porque não?” são algumas das peças que o grupo já apresentou. Algumas resultaram do improviso, com o cunho do encenador do grupo, Helton Delgado, já outras foram escritas por Péricles Silva, dramaturgo. “Sempre gostei de escrever, principalmente críticas sociais … escravatura, impacto do teatro na sociedade, pobreza, delinquência”, exemplifica.

Péricles encontra-se a frequentar uma formação no Centro Cultural Português mas também ministra formações para pessoas que queiram começar no teatro. Têm acontecido todos os anos e gratuitamente mas este ano passou a ser pago de modo a que o grupo consiga retirar algum rendimento.

Espaço para ensaios

O grupo “Somá Cambá” está determinado em trabalhar para melhorar e dinamizar o espaço onde atualmente ensaiam – “ex-esquadra”, em frente ao Mercado de Peixe – e torná-lo numa sala de espetáculos equipada, ainda que pequena.

Espaço para ensaios tem sido, aliás, um dos entraves do grupo. Além do Centro Cultural do Mindelo, segundo Péricles Silva, sem equipamentos técnicos necessários, e a Academia Jotamont onde o valor pedido não conseguem suportar, o coletivo enaltece a recente criação da Academia Livre de Artes Integradas do Mindelo (ALAIM) que representa mais uma alternativa.

“Está a acontecer uma ‘overdose’ de teatro em São Vicente”

Na opinião de Péricles Silva, “está a acontecer uma ‘overdose’ de teatro em São Vicente”. “Exemplo disso é a quantidade de grupos que têm aparecido. No ano passado durante o mês de março, dedicado ao teatro, havia apresentações só aos fins de semanas e este acontecem praticamente todos os dias e em dois espaços diferentes, quase em simultâneo”, acrescenta.

O ator exalta a dinâmica que os diversos grupos têm criado e a espontaneidade dos atores que fazem um esforço muitas vezes para conciliar os estudos ou o trabalho com a vontade de representar. “Há grupos que apontam no profissionalismo mas também há outros que, a meu ver, não passam a melhor das mensagens. Acho que é importante termos noção de o que queremos transmitir e o que as pessoas precisam receber naquele momento”, desabafa.

O responsável diz ainda que “em Cabo Verde não há ainda muito apoio voltado para o teatro”. Na opinião do jovem falta essencialmente mais e melhores espaços para os grupos ensaiarem e apresentarem os seus trabalhos. Mas também acesso a equipamentos – iluminação, sonoplastia – que praticamente não há.

Quanto aos retornos, Péricles assegura que são mais os gastos do que ganhos, pois a maior parte das vezes não são remunerados. “Os atores pagam para fazerem teatro em São Vicente. Tiram do seu bolso o valor necessário para pagar, por exemplo, os cenários”, lamenta.

Este mês tem sido de muito trabalho para os “Somá Cambá” com apresentações em Mindelo das peças “Paródia”, “Dixbunda” e “Entre Vistas”. Em abril contam fazer mais apresentações e estrear nova peça que já estão a ensaiar.

Comentários