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Caetano Veloso faz 75 anos: "O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece"

Os 75 anos que cumpre na segunda-feira têm dentro deles 52 de carreira que o tornaram num dos maiores nomes da música brasileira e do movimento tropicalista, em particular, mas Caetano Veloso não mostra vontade de querer descansar.

Já este ano, Caetano Veloso, em que também assinala os 50 anos do lançamento do disco de estreia, “Domingo” (com Gal Costa), completou a digressão internacional com Teresa Cristina, um ano depois de outro périplo com Gilberto Gil, e prepara-se agora para montar um espetáculo com os três filhos, em outubro, prevendo ainda reeditar o livro de memórias “Verdade Tropical”.

Em entrevista ao El País, em abril deste ano, disse sentir “alguma insatisfação”, por ser “insaciável em termos de fazer coisas na vida”. Quanto a efemérides, entende-as como “um pouco chatas”, garantiu à Folha de S. Paulo, acrescentando que se sente agora “mais anticelebratório” do que em 'datas redondas' do passado.

Talvez pela voracidade que sente, Caetano Veloso revê-se nas palavras escritas por Gilberto Gil em “Não tenho medo da morte”: “Não tenho medo da morte/mas sim medo de morrer”. Como disse em entrevista ao Estadão no ano passado: “Não estou tão seguro de que estarei presente e consciente no momento de morrer. Tenho medo, em geral, da ideia de não estar presente, de não ser”.

Nos 50 anos do músico, o cineasta Walter Salles dedicou-lhe um documentário: "O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece", um verso da canção "Força Estranha" que se aplica ao próprio autor da letra que veio a ser usada por Roberto Carlos.

Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso nasceu a 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, Salvador. Completa 75 anos, quando se somam 50 do Tropicalismo, o movimento de modernidade da música brasileira que o reuniu a Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, aos Mutantes e a sua irmã, quatro anos mais nova e a quem escolhera o nome, Maria Bethânia.

"Tropicália ou Panis circenses", disco que reunia os nomes da corrente, foi publicado em 1968, mas a via estava definida desde o ano anterior, quando Caetano, Gil e Os Mutantes levaram "Domingo no Parque" ao Festival Record, e Caetano lançou o álbum de estreia, "Domingo", com Gal, que inclui "Alegria, Alegria".

O interesse de Caetano pela música manifestara-se cedo, mas foi nos anos 1960 que se afirmou, sobretudo através da Bossa Nova e de João Gilberto, quando cantava com a irmã em bares de Salvador, como se lê na biografia do seu 'site' oficial.

Os anos de 1963-1966 foram decisivos: estudou Filosofia na Universidade da Bahia, conheceu Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé; compôs para a peça "O Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, e para "A Exceção e A Regra", de Bertolt Brecht; gravou o primeiro 'single'; fixou-se no Rio de janeiro.

O primeiro álbum em nome próprio - "Caetano Veloso" - é de 1968 e inclui "Tropicália" e "Soy Loco Por Ti, América".

Nesse ano, levou "É Proibido Proibir" ao Festival da TV Globo. O inconformismo valeu-lhe vaias, a desclassificação e as atenções da ditadura militar, que acabou por o deter. Na viragem para 1969, gravou o segundo "Caetano Veloso", este de capa branca, que só seria publicado quando já se encontrava no exílio, em Londres, com Gilberto Gil, companheiro de música e de prisão.

Na capital britânica, compôs para o Brasil - Gal, Bethânia, Elis Regina - e concebeu o terceiro álbum, "Caetano Veloso", onde cantou "Quero Voltar Pra Bahia". Foi publicado em 1970, cerca de dois anos antes do regresso.

Em 1973, lançou o disco experimental "Araçá Azul". A década conheceria ainda o projeto Os Doces Bárbaros, com os companheiros de sempre - Gil, Gal, Bethânia -, e, entre outros, os álbuns "Muito", "Cinema Transcendental" e "Bicho".

Nos anos de 1980 assimilou o rock e o rap, que levou para "Outras Palavras", "Cores e nomes" e "Velô". É o tempo de canções como "Ele Me Deu Um Beijo Na Boca", "Podres Poderes" e "Língua", que cantou com Elza Soares. Em 1986, montou "Chico & Caetano", para a TV Globo, dirigiu "O Cinema Falado". Atuou no Olympia, em Paris, no Festival de Montreux, estreou-se em Nova Iorque, onde gravou com Arto Lindsay.

A década de 1990 é do disco "Circuladô" e de "Fina Estampa", no qual recria clássicos latinos, com Jaques Morelenbaum. É também tempo de celebração do movimento original, com o álbum "Tropicália 2", e o livro de memórias "Verdade Tropical". Cantou "Haiti", rap social, "Cinema Novo" e "Desde Que O Samba É Samba".

Com "Livro", de 1999, que inclui "Navio Negreiro", venceu o Grammy de Melhor Álbum de World Music. Nesta altura, atuou com João Gilberto, em Buenos Aires (acabaria por produzir "João Voz E Violão"). Lançou o CD "Omaggio a Federico e Giulietta".

Participou nos filmes "Fala com Ela", de Pedro Almodóvar, e "Frida", de Julie Taymor, que lhe daria uma nomeação para o Óscar de melhor canção.

O álbum "Noites do Norte" saiu em 2000, seguido de "Eu não peço desculpas" (2002), "A foreign sound" (2004), sobre o cancioneiro norte-americano, e "Cê" (2006), onde se estreia com a bandaCê, que o acompanha na última década, num reforço do seu lado mais rock.

O blogue "Obra Em Progresso" deu origem a "Zii E Zie, Segundo Disco", em 2009, álbum em que ensaiou "transambas" e "transrock". Em 2012, lançou "Abraçaço", Grammy Latino de melhor álbum, produzido pelo filho Moreno Veloso, e que retomaria ao vivo, numa digressão que também passou por Portugal.

"Abraçaço" abre com "Bossa nova é foda". Entre outras canções, tem "O império da lei", dedicada a Dorothy Stang, missionária assassinada no Pará, em 2005, e "Um comunista", sobre o escritor militante Carlos Marighella, autor do "Manual do Guerrilheiro Urbano".

Nos anos mais recentes, Caetano prosseguiu as atuações a solo, com Gilberto Gil ou com a cantora Teresa Cristina, na digressão “Caetano apresenta Teresa”, que também apresentou em Portugal.

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