Artigo

20 anos de "The Fat of the Land": O clássico dos Prodigy continua implacável

Disco de referência quando o assunto é a colisão de rock e música de dança, "The Fat of the Land", o terceiro álbum dos Prodigy, foi editado há 20 anos.

Marcou muitas juventudes, despertando paixões e alimentando outros tantos ódios em finais da década de 1990. Mas ao contrário do seu público de então, "The Fat of the Land", editado a 30 de junho de 1997, mantém-se um disco ferozmente adolescente, a dois ou três passos da idade adulta. E ainda bem.

Se a música de dança conheceu uma expansão considerável em meados dos anos 1990, o quarteto britânico (que entretanto se tornou um trio) não só teve uma palavra a dizer como abriu caminho para tantos outros, sendo muitas vezes imitado (sem nunca ser igualado) e diluindo a fronteira que separava as pistas de dança de outros polos musicais - processo para o qual contribuíram também nomes como os conterrâneos Chemical Brothers, Underworld ou Orbital, ou ainda os franceses Daft Punk, mesmo que, com a eventual exceção destes últimos, nenhum tenha sido tão determinante junto de um público até então alheio à eletrónica.

"Experience" (1992) e "Music for the Jilted Generation" (1994), os dois primeiros discos do coletivo liderado por Liam Howlett, não tinham passado propriamente despercebidos, mas o seu efeito, por mais mais impacto que tenha deixado (e deixou bastante, tanto a nível criativo como no culto que gerou), foi apenas residual quando comparado com o da terceira investida.

The Prodigy

"The Fat of the Land" (1997), blockbuster colossal, distorcido e inesperado, foi o que permitiu que a popularidade dos Prodigy atravessasse o Atlântico, apresentando-os a uma nova legião de adeptos nos EUA, triunfo para o qual contribuiu uma mudança de som aliada a um repensar (tão ou mais decisivo) da imagem.

Howlett manteve-se, como sempre, nos bastidores, arquitetando canções que, além da eletrónica dançável que lhe deu fama (do techno ao breakbeat), tentaram um híbrido industrial/rock/hip-hop incisivo logo à primeira amostra: "Firestarter", portentoso single de avanço, marcou a estreia dos Prodigy no lugar cimeiro do top de singles britânico, onde se mantiveram durante três semanas.

A sonoridade, agreste como poucas vezes o grupo tinha revelado até aí, teve um acompanhamento visual igualmente incendiário no videoclip, assinado pelo britânico Walter Stern (colaborador habitual dos Prodigy ou dos Massive Attack e autor do não menos emblemático "Bittersweet Symphony", dos Verve). Filmado a preto e branco num túnel londrino, o vídeo seguiu Keith Flint, bailarino tornado vocalista alucinado que ficou, desde então, como a face mais reconhecível do grupo - dividindo, por vezes, o protagonismo com Maxim Reality, MC apesar de tudo mais discreto.

Tão marcante para a imagem da sua banda como Johnny Rotten o tinha sido, 20 anos antes, para a dos Sex Pistols (grupo a que os Prodigy foram comparados, sucedendo-o com uma iconografia mais cyberpunk), Keith Flint preparou terreno para o cenário apocalítico de "The Fat of the Land", reforçado pelo single seguinte, o também sinuoso "Breathe" (outro número um nos tops), e mais ainda pelo terceiro, "Smack My Bitch Up", de longe o mais polémico dos três.

Neste último caso, o videoclip também foi ferramenta essencial para a propagação de um imaginário caótico e de várias polémicas associadas. A canção, já censurada em várias rádios por acusações de misoginia, teve um efeito ainda mais polarizante quando acompanhada pelas imagens do sueco Jonas Åkerlund. Viagem noturna, com câmara subjetiva, por um roteiro de excessos urbanos - com álcool, drogas, sexo ou violência à descrição -, o videoclip respondia às acusações de misoginia com um twist final desconcertante, capaz de alimentar uma controvérsia que o tornou num objeto banido em vários canais televisivos - o que não o impediu, ainda assim, de arrecadar dois galardões nos MTV Video Music Awards (outros tempos, de facto).

Ver artigo completo

Comentários