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Cabo Verde lança festival literário Morabeza em outubro

Cabo Verde vai organizar este ano, em outubro, a primeira edição do festival literário Morabeza, que pretende ser “um grande momento cultural” no país e internacionalizar a literatura cabo-verdiana, nomeadamente através do incentivo à tradução.

créditos: Expresso das Ilhas

“Vamos trazer autores dos quatro continentes para Cabo Verde. A ideia fundamental deste festival é reativar tudo aquilo que é a dinâmica de produção literária em Cabo Verde a partir da presença de autores de renome internacional”, explicou à Lusa o ministro da Cultura e Indústrias Criativas, Abraão Vicente, que se encontra em Macau para participar no festival literário Rota das Letras.

Apesar do foco nos autores estrangeiros, os autores locais terão um lugar de relevo: “A nossa principal recomendação é que os autores cabo-verdianos de referência atualmente a escrever e a publicar sejam todos convidados, tenham as suas mesas redondas, apresentem os seus livros, que as editoras nacionais também tenham espaço”.

Abraão Vicente, que não vai estar envolvido com a curadoria do festival, não adiantou nomes, dizendo apenas que há dois com quem já há conversações e que “podem ser uma boa surpresa para uma primeira edição de um festival literário feito em Cabo Verde”.

O evento, que se vai realizar entre a última semana de outubro e a primeira de novembro na Cidade da Praia, vai incluir ‘workshops’ ligados à escrita criativa, à publicação, à edição de livros e à tradução.

Um dos objetivos é conseguir que os autores cabo-verdianos sejam mais traduzidos e o ministro disse já ter discutido com o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura e com o presidente do Instituto Cultural de Macau “sobre a possibilidade de se traduzir obras para chinês e outros idiomas”.

“É uma estratégia nossa, não só reeditar edições originais, mas fazer com que autores cabo-verdianos sejam introduzidos e traduzidos noutros mercados”, disse.

Durante a sessão “Cabo Verde, país de escritores” e perante uma sala cheia que contava com vários cabo-verdianos radicados em Macau, Abraão Vicente falou sobre a importância da literatura para a identidade nacional e destacou, em particular, a relevância do crioulo.

“Há certos sentimentos que nós, cabo-verdianos, só podemos exprimir em crioulo, mesmo quando estamos a falar português. Há uns dias alguém me perguntava ‘Mas saudade não é a mesma coisa que ‘sódade’?’ Penso que tanto a saudade como a ‘sódade’ exprimem sentimentos, mas porque ‘sódade’ é dito em crioulo, o conteúdo é outra coisa que não sendo totalmente diferente, tem outro sentido”, explicou.

“Vejo que muitos cabo-verdianos, patrícios meus que encontrei desde que cheguei a Macau, têm ‘sódade’. E a nossa ‘sódade’ não tem bacalhau e vinho do Porto, tem grogue, tem cachupa, tem xerém”, apontou.
A literatura cabo-verdiana só passou realmente a existir quando foi assumida “com as paisagens de Cabo Verde, com os homens de Cabo Verde, quando o escritor assume que escreve como um cabo-verdiano”.

“E é aí que começa a afirmação de uma identidade, de uma nação que se quer libertar, ver-se independente e se assume diferente da literatura da vivência das outras colónias”, afirmou o ministro.

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