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Ator cabo-verdiano Adriano Reis considera “discriminatória” a escolha dos atores em Portugal

O ator e ativista cabo-verdiano Adriano Reis, residente em Portugal há cerca de 14 anos, considerou de “discriminatória” a forma como são escolhidos os atores para trabalharem no teatro em terras lusas.

Adriano Reis, que falava numa entrevista à Inforpress, a propósito do seu regresso ao teatro, após seis anos de ausência dos palcos, anunciou a sua reentrada em cena para 24 de março, criticando, no entanto, a atitude dos responsáveis teatrais em Portugal que, segundo ele, ao selecionarem os atores para integrar o elenco das peças adoptam o critério de “escolha de actor temático”.

Adriano Reis fez saber que, após muita luta e adversidades, conseguiu atuar em vários palcos portugueses indicando ser, de momento, o único cabo-verdiano a ter a “honra e o privilégio” de actuar no Teatro D. Maria II, um dos mais conceituados em Portugal.

“Após isto, a partir de 2010, passei por um período de reflexão. Ou seja, não queria ser aquilo que eu chamo de actor temático”, indicou, reforçando a sua ideia com a explicação de quando precisarem de um actor para desempenhar um papel de um trabalhador da construção chamam os actores de raça negra, o mesmo acontece com o papel de um escravo ou com o de um carteirista.

Adriano Reis disse ter-se saturado desta situação e, segundo ele, porque pensa que não pode estar sempre disponível para desempenhar esse papel de “ator temático” decidiu focalizar-se em outras soluções afastando deste cenário e começou a traçar o seu próprio caminho.

Fez saber que, agora, e após ter ultrapassado este período de reflexão, está a preparar a sua reentrada nos palcos com a estreia da peça teatral “Des(Para/so)”, prevista para 24 de março.

Adriano Reis considera “fascinante” o seu novo projecto que, segundo ele, parece um pouco contraditório com aquilo que o fez parar durante seis anos.

“Trata-se de uma peça em que um actor ‘negro’ contracena num palco com outro ator de ‘raça branca’ e tentam retratar a vida em Portugal brincando um pouco com os factos da vida real”, salientou indicando ser uma comédia co-produzida pelo Teatro MUSGO-Produções Culturais e a RJ Anima-Associação, uma associação de que o próprio Adriano Reis é presidente.

Questionado pela Inforpress, se este tempo de paragem e levando em consideração tudo aquilo que contou significava que não se sentia a vontade em fazer teatro em Portugal, Adriano Reis foi peremptório afirmando que sente-se “perfeitamente tranquilo” a trabalhar no teatro neste país mas que apenas recusa-se desempenhar papéis relacionados de forma negativa com a sua raça ou cor da pele.

Adriano Reis que foi bem conhecido pelo desempenho de um papel de um Palhaço Crioulo, disse que se trata de um “clown”, ou seja, a forma como é denominado um palhaço teatral.

“O palhaço crioulo é mais um eco pessoal. Já não o faço em Portugal continental há algum tempo mas tenho-o feito nos Açores, de vez em quando sou chamado lá e, também, em Cabo Verde. Aqui no continente é muito complicado porque aqui pensa-se que este produto é apenas para as comunidades africanas”, explicou.

Questionado sobre a forma como coloca as coisas, na medida em que a arte é universal, o actor de origem cabo-verdiana respondeu que sendo a arte um produto universal, então não percebe a atitude das pessoas que não sabem lidar bem com a problemática da diversidade artística, tida como património cultural imaterial da humanidade pela UNESCO, desde 2003.

“Se assim é, então deve ser valorizada por todos e não somente por uma parte da sociedade. Pode ser uma utopia minha mas acho que aqui não respeitam muito a diversidade”, disse.

Fez saber que quando leva a cabo um trabalho deseja sempre que seja abrangente e não somente para as comunidades africanas.

Adriano Reis admite sonhar com um grande papel numa peça teatral mas em relação aos trabalhos na televisão considera ser difícil tal pretensão.

O actor disse que mesmo estando na diáspora continua a dar o seu contributo, mesmo que modesta, para a evolução do teatro em Cabo Verde, que segundo disse, é hoje uma referência em África.

Adriano Reis aproveitou para lançar um apelo ao Governo de Cabo Verde no sentido de “valorizar mais” os agentes culturais residentes no arquipélago e na diáspora que, segundo ele, “são os verdadeiros embaixadores da terra e da sua cultura”.

Considera que o Governo de Cabo Verde deverá ainda criar as condições básicas e ver para os agentes culturais, segundo ele, pessoas como a Celina Pereira, Titina Rodrigues, Armando Tito e vários outros artistas que “precisam de um reconhecimento maior e uma maior dignificação”.

“Aos fazedores da Cultura eu peço-os muito trabalho que não se deixem deslumbrar, fazem tudo para evitar a arrogância, pois, é com humildade que se aprende. Aos jovens, no geral peço-os muita reflexão”, concluiu.

Adriano Reis nasceu há 49 anos em Luanda, Angola. Filho de pais cabo-verdianos, muito cedo regressou à terra dos progenitores, na antiga Vila do Porto Novo, hoje, cidade, em Santo Antão, onde começou a dar os primeiros passos no teatro.

Habilitado com o Curso de Teatro e Expressão Corporal, este ator e dirigente associativo entende que a crise prejudica mais os desfavorecidos e disse que esta situação deriva do facto de a sociedade tolerar de forma camuflada a corrupção.

Em relação aos refugiados é de opinião que interesses financeiros e económicos das grandes potências têm impedido o fim desta problemática e do terrorismo que para ele constitui uma forte ameaça à segurança mundial.

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