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Artista português “invade” Mindelo com cartazes com poesia

Gonçalo Ferreira é admirador confesso da língua crioula.

Gonçalo Ferreira

créditos: Inforpress

As ruas do Mindelo serão ”invadidas” profusamente, nos próximos dias, com cartazes com poemas Haikus, traduzidas para o crioulo, numa espécie de anúncio para uma exposição que retrata um diálogo entre a poesia e a cidade.

Trata-se de um projeto do poeta português Gonçalo Ferreira, na sequência de uma residência artística e uma estadia criativa, em São Vicente, das quais surgiu “em pouco tempo” o livro “Haikréus”, de 25 poemas Haikus, um minimalismo poético japonês, escritos em português e traduzidos para o crioulo (edição bilingue), 25 fotografias e 25 cartazes, em forma de post-it, tamanho “um pouco maior” do que o fromato A1.

O interesse, precisou, é que as pessoas da cidade e da ilha se apropriem desses cartazes e levem-nos para casa.

A mostra, que integra leitura de poesia com atriz convidada, é inaugurada este domingo no Centro Nacional de Artesanto e Design (CNAD), onde ficará patente “por alguns meses”, e está alicerçada na série fotográfica em que se retratam os cartazes no seu diálogo com a cidade e com a ilha, mas servirá também para apresentar o livro “Haikréus” e um vídeo que mostra a sua edição tipográfica.

A ideia, explicou, é a exposição servir de síntese de todo o projeto que começou com a poesia e execução do livro e que depois “transpirou” para este “espalhar de poesia pela ilha” e ficar aqui o registo deste diálogo que aconteceu.

Gonçalo Ferreira revelou à Inforpress o seu encanto pela forma como foi feita a edição tipográfica do livro, em São Vicente, mecânica e manual, um “processo ele próprio poético”, sintetizou, e já “muito difícil de conseguir noutro sítio”, pois o livro foi feito sem uso do computador, “absolutamente incrível” nos dias de hoje.

Admirador confesso da língua crioula, Gonçalo Ferreira admitiu que tinha uma curiosidade e uma vontade de experimentar a língua crioula, uma língua “de futuro, um minimalismo do português, sem isso ser redutor”, porque faz uma espécie de síntese “dos portugueses” que se falam no mundo.

“Há qualquer coisa na língua crioula que é uma simplicidade desarmante e profundamente poética e que se casa com o meu trabalho poético que é tendencialmente minimalista”, rematou o artista.

Ademais, acrescentou, o crioulo é uma língua que deu uma dimensão “absolutamente inesperada”, com uma “sonoridade incrível” a este projeto específico dos poemas Haikus.

Gonçalo Ferreira já vem a Cabo Verde há 12 anos, esteve em nove das 10 ilhas do arquipélago – “só me falta conhecer a ilha de São Nicolau” – mas foi no Mindelo que sentiu “o click”.

“Das minhas primeiras visitas ao Mindelo percebi que esta cidade tem uma energia criativa muito grande e fiquei com imensa vontade de vir aqui fazer uma residência artística e uma estadia criativa, ela finalmente aconteceu agora e não estava engando”, declarou.

Mas, há mais, conforme explicou Gonçalo Ferreira, todo o projeto, desde a execução dos cartazes, da residência, da execução e construção do livro na tipografia, foi registado em vídeo pelo realizador português Gonçalo Paulo que vai resultar num documentário que espera estrear no início de 2018, no Mindelo.

Depois de São Vicente, a exposição segue para Lisboa e Sines (Portugal) e “provavelmente” à Cidade da Praia.

Para além de escritor “com obra pessoal de poesia”, Gonçalo Ferreira é diretor criativo de uma agência de branding, em que opera na área do design gráfico e na construção de marcas, trabalha em televisão, como argumentista e ator, e escreve para televisão e para o teatro.

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