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Arménio Vieira, Germano Almeida e José Luiz Tavares descartam Festival Literário Morabeza

A Inforpress apurou que um dos motivos para o ” boicote” ao evento é a forma como está a ser organizado o festival, cuja coordenação foi entregue a uma empresa portuguesa, a Booktailors.

créditos: Inforpress

Os escritores Arménio Vieira, Germano Almeida e José Luiz Tavares, três das figuras consideradas mais importantes das letras cabo-verdianas, não vão participar no Festival Literário Morabeza, que se vai realizar em outubro/novembro, na cidade da Praia.

A Inforpress apurou que um dos motivos para o ” boicote” ao evento é a forma como está a ser organizado o festival, cuja coordenação foi entregue a uma empresa portuguesa, a Booktailors.

Criado pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, o Festival Literário Morabeza, evento que passa a ser realizado anualmente no arquipélago, pretende ser “um grande momento cultural” no país e internacionalizar a literatura cabo-verdiana, nomeadamente através do incentivo à tradução.

A acontecer de 30 de outubro a 05 de novembro, os escritores que se recusam a ir a este festival são nada mais do que o único prémio Camões de Cabo Verde (Arménio Vieira), o ficcionista mais popular (Germano Almeida) e o escritor mais premiado de sempre (José Luiz Tavares).

Contactada, fonte do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas apenas se limitou a confirmar a data de realização do evento, adiantando que a lista definitiva dos escritores convidados será tornada pública no final do mês, sem avançar mais pormenores.

Em declarações à Inforpress, o poeta José Luíz Tavares não escondeu o seu desagrado pelo facto de, segundo explicou, a Booktailors só convidou os escritores cabo-verdianos, pelo menos aqueles de que tomou conhecimento, depois de convidar e de já ter a “mesa composta” com os escritores estrangeiros.

“Aliás, é o próprio ministro da Cultura que cauciona este desrespeito ao anunciar em pleno parlamento, a 26 ou 27 de junho, o nome do Afonso Cruz, Agualusa, Mia Couto e Valter Hugo Mãe, dizendo que perspetivava convidar os escritores cabo-verdianos mais importantes”, ajuntou José Luiz Tavares.

O poeta esclareceu que não tem nada contra esses escritores, de que é amigo de uns, admirador de outros, mas “contra esse modo de proceder”, apresentando os referidos escritores como “ grandes astros” do evento, “e nós como simples escreventes que vão para os lugares sobrantes”.

“Imagina que nem conseguiram convidar o Arménio Vieira, o nosso único prémio Camões. Se vierem com o pretexto de que não conseguiram contactá-lo, é porque há um erro de base que é ser uma empresa comercial estrangeira (que está a ganhar o seu legitimamente) a contactar os escritores cabo-verdianos”, reforçou.

“Protocolarmente deveria ser o Ministério da Cultura, através da Biblioteca Nacional”, disse José Luiz Tavares, recordando que o Arménio Vieira esteve num evento em que participaram o ministro da Cultura e a curadora da Biblioteca Nacional, e “nem tiveram a delicadeza de o convidar, mesmo que informalmente, deixando os trâmites logísticos para a tal empresa”.

Adiantou, enfatizando que o Arménio Vieira esteve depois no seu lugar de sempre (Café Sofia), na Cidade da Praia, durante quase um mês, “e ninguém falou com ele”.

“Quanto a mim, a Booktailors tem os meus contactos desde março, e apenas me contactou no primeiro dia de agosto, umas horas depois de ter enviado um email à senhora curadora da Biblioteca Nacional, com conhecimento do senhor ministro, ao qual nem um nem outro responderam”, acrescentou, interrogando se é assim que se quer valorizar a literatura e os escritores cabo-verdianos, “permitindo que eles sejam subalternizados na sua própria terra”.

“Não deveria ser o Arménio Vieira, o nosso único prémio Camões, o cabeça de cartaz desse evento? Aliás, quantos poetas foram convidados para esse evento”, interrogou, afirmando que o Arménio, informado do que se está a passar, também não irá ao festival, mesmo que o conseguissem convidar.

José Luiz Tavares mostrou-se também crítico de outros escritores cabo-verdianos que, mesmo “conhecedores dessas peripécias, insistem em participar na mesma”.

“Se acho que ninguém está obrigado a tomar a mesma posição que eu, o Arménio e o Germano tomámos, mas se não nos damos ao respeito na nossa própria casa, onde é que vamos ser respeitados”, questionou, lembrando que participou em dezenas de eventos em todo o mundo e nunca o trataram como “figurante ou criador de segunda”.

“Permiti-lo no meu país era renegar o património de exigência que estabeleci nesses quinze anos como autor publicado em que, sem vaidade nem modéstia, posso dizer que reconfigurei aquilo que é hoje o imaginário poético cabo-verdiano”, vincou.

“Outro aspeto que me inquieta é a natureza deste festival. Eu estava convencido que era um festival literário, destinado a promover a leitura e o contacto com os criadores, mas não, há poucos dias soube que é um festival para promover marcas, para trazer turistas”, denunciou, afirmando ser “um poeta intransitivo” e que o poeta José Luiz Tavares não «existe para promover marcas, morabeza, ou quejandos”.

“A literatura hoje não pode muito, mas ainda assim ambiciona alargar os limites do humano através da linguagem que lhe é própria, sugerir modos alternativos de existência, mesmo se o povo do futuro se apresenta apenas como quimera a perseguir”, disse, estranhando também o nome Morabeza escolhido para o festival literário.

“Morabeza? O que tem a morabeza que ver com a literatura? Este conceito só pode vir de cabeças estrangeiras que desconhecem a realidade do Cabo Verde atual”, acusou o escrito, lembrando que, se o fito do festival é atrair turistas, “porque não ir pelo lado mais exótico, apresentando-lhe um produto único que é o kasu-bodi”, questionou.

“Eu próprio sugeri, há pouco tempo, o nome de Hespérides, que é uma designação que remete imediatamente para a literatura e para uma conceptualização mítica de Cabo Verde”, concretizou.

O poeta diz que nos emails que trocou com a Booktailors, quando confrontada com essa forma de proceder, não tendo como desmenti-la, a empresa “remeteu-se simplesmente ao silêncio”.

Para José Luiz Tavares, “este gesto é um ato de dignidade”, tanto mais que, afirmou, “onde pontificam valores irrenunciáveis não pode haver barganha nem transigência”.

Contando pela Inforpress, o ficcionista Germano Almeida confirmou que ele sequer está convidado para o festival.

“Quer dizer, a princípio achei que estava, tinha recebido um e-mail da Booktailors que não li com atenção porque o tomei como um convite para o festival. Só depois é que me ocorreu repetir a leitura e vi que apenas estou convidado a participar numa mesa, sobre a tradição oral e a necessidade primária que existe de contar histórias”, citando o texto que diz ter recebido.

Essa atividade, esclareceu Germano Almeida, “deveria ser no dia 04 de novembro, pelas 16.00, contra um per diem de 250 Euros”.

“Quando ainda pensava que o convite era para todo o festival, respondi que estando em Cabo Verde e bem (tenho problemas de saúde que me podem obrigar a deslocar-me) teria todo o gosto em estar presente. Depois de concluir que o convite é apenas para uma atividade, que aliás está mudada de 4 para 5, não estou interessado em participar, até por solidariedade para com os nossos poetas”, declarou o escritor natural da ilha da Boa Vista.

Para Germano Almeida, “não faz sentido” que para um festival de literatura cabo-verdiana os poetas estejam relegados para “rabo teco”, sendo certo que “são eles os mais representativos da nossa literatura”.

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